29 de setembro de 2013

A prisão de uma jornalista brasileira nos Estados Unidos: algumas reflexões

Em geral, tenho usado este espaço para tratar do lançamento do meu último livro, “1889”, ou de meus compromissos de trabalho como escritor. Hoje, no entanto, escrevo sobre o impacto de uma notícia que me causou profundo incômodo. Uma colega minha de profissão, a jornalista Claudia Trevisan, correspondente do jornal “O Estado de S. Paulo” em Washington, foi presa, algemada e mantida incomunicável por cinco horas, primeiro dentro de um carro de polícia e depois em uma delegacia, por tentar entrevistar nos Estados Unidos o presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Joaquim Barbosa, convidado a dar uma palestra no campus da Universidade de Yale.

As autoridades americanas alegam que Claudia Trevisan foi presa porque invadiu uma propriedade privada, ou seja, um prédio da Universidade de Yale, sem prévia autorização. Cláudia nega. Diz que entrou nas dependências da universidade de livre acesso às demais pessoas e que, até ser presa, em momento algum seus movimentos foram impedidos por vigilantes ou porteiros de plantão. Pela sua descrição, o policial que a prendeu sabia que se tratava de uma jornalista e deixou claro que a detenção estava relacionada à sua tentativa de entrevistar o  ministro Joaquim Barbosa.

O episódio levanta algumas questões perturbadoras.

O tratamento seria o mesmo caso se tratasse de uma repórter dos jornais “The New York Times” ou “Washington Post”, da rede de televisão “CNN” ou qualquer outros dos grandes veículos de comunicação dos Estados Unidos? Certamente não porque, nessa hipótese, a reação corportiva da imprensa americana seria avassaladora e muito provavelmente obrigaria as mais altas autoridades do país a se pronunciar sobre o caso.

Na minha opinião, Claudia Trevisan foi presa por tentar exercer o seu ofício de jornalista, contra a vontade das autoridades envolvidas no episódio, e também por ser brasileira, ou seja, uma estrangeira em terras americanas. Mais do que vítima da atitude arbitrária de um policial, Claudia foi obviamente alvo do preconceito contra estrangeiros e, em particular, latino-americanos, que infelizmente ainda permeia parte da sociedade americana. Morei nos Estados Unidos durante um ano, enquanto fazia pesquisas para o livro “1889”. Em geral, fui bem tratado e acolhido pelos americanos, entre os quais fiz vários amigos. Mas também  vivi esse preconceito na pele em mais de uma ocasião.

A sociedade americana tem feito um enorme esforço de aceitação do “outro” – o que inclui imigrantes mexicanos, estrangeiros de outras nacionalidades e também negros, índios, homossexuais e representantes de categorias definidas de modo genérico como “minorias”. Muitas vezes, no entanto, esse esforço é mais aparente e politicamente correto do que real e se expressa na simples reação de contrariedade e desprezo estampada no rosto de um policial ou do vendedor de uma loja ao perceber que o interlocutor não é um “native speaker”, ou seja, um americano branco, nativo, protestante, de origem anglo-saxã. O que mais me surpreendeu foi observar que o preconceito pode vir (e em doses até maiores)  de ex-imigrantes ilegais que, depois de muito esforço, alcançaram a cidadania americana ou de representantes de minorias que galgaram funções públicas que lhes dão o direito de controle sobre outras pessoas, caso de policiais e agentes da imigração nos aeroportos.

O ministro Joaquim Barbosa e os responsáveis pela Universidade de Yale afirmam que o evento era “fechado para a imprensa”. Na minha opinião, não existe “evento fechado para a imprensa” se lá dentro existir um assunto de interesse público ou um personagem que deva ser entrevistado em nome do interesse público. O ministro Barbosa está no centro de um vendaval político no Brasil: o mal acabado e mal explicado julgamento do chamado Escândalo do Mensalão, a respeito do qual a sociedade brasileira exige prestação de contas. Portanto, é alvo natural da investigação jornalística e não pode, sob protexto algum, fugir das perguntas dos repórteres.

Na minha juventude, quando iniciei minha carreira jornalística em Curitiba, jornais e repórteres ainda eram alvo de censura do regime militar de 64. O mesmo jornal “O Estado de S. Paulo”, para o qual trabalha agora Claudia Trevisan, costumava publicar versos de Camões nas suas páginas para indicar aos leitores que a notícia que deveria figurar naquele espaço havia sido censurada. As autoridades do regime de 64 também tinham o hábito de fazer “eventos fechados à imprensa”. Os generais-presidentes raramente davam entrevistas a jornalistas. Nem por isso deixaram de ser questionados pelos repórteres toda vez que apareciam em público – e não me consta que nenhum jornalista tenha sido preso e algemado naquela época por tentar entrevistar um general-presidente (muitos foram presos e até torturados por outras razões, mas não por essa).

Leia neste link o artigo do jornal “O Estado de S. Paulo”sobre a prisão de Claudia Trevisan: http://www.estadao.com.br/noticias/nacional,correspondente-do-estado-e-presa-e-algemada-em-yale-%28eua%29,1079563,0.htm

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Comentários
  • EE.UU.: Policía de la Universidad de Yale detiene a corresponsal brasileña que buscaba entrevistar a juez | Análisis Libre Internacional 6/10/2013

    […] En su blog, el periodista Laurentino Gomes se preguntó: “¿Habría sido el trato el mismo si se hubiera tratado de un reportero del New York Times o del Washington Post o de la cadena de TV CNN o cualquier otro de los grandes medios en Estados Unidos?” Según Gomes, “no hay ‘un evento fuera de límites para la prensa’ si es del interés público o si hay alguien ahí que debe ser entrevistado en el nombre del interés público”. […]

  • Laurentino Gomes 29/09/2013

    Querida amiga e colega Claudia Trevisan: minha solidariedade e profunda admiração por você e pelo seu trabalho. Coragem! Ser jornalista, muitas vezes, exige isso: coragem!

  • Claudia Trevisan 29/09/2013

    Laurentino, fiquei profundamente comovida com seu post. Não contive as lágrimas. Obrigada pela defesa generosa de uma colega.
    Beijo!

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