13 de maio de 2015

O preço da Lei Áurea para o Império do Brasil

Nos 127 anos da assinatura da Lei Áurea, um trecho do capítulo ‘A Redentora’, do meu livro ’1889′, que trata do papel desempenhado pela abolição da escravidão na queda da monarquia no Brasil:

“Ao assinar a Lei Áurea, em Treze de Maio de 1888, a Princesa Isabel propiciou um derradeiro e fugaz momento de popularidade da monarquia brasileira, já abalada pelos conflitos da Questão Militar e pelo avanço da propaganda republicana. Em razão disso, recebeu homenagens e celebrações em todo o país, em especial por parte de negros, mulatos e ex-escravos que viam na princesa a protetora que jamais haviam tido em toda a história brasileira. O mulato e abolicionista José do Patrocínio, lhe deu o título de A Redentora, com o qual é reconhecida até hoje entre os brasileiros. A mesma Lei Áurea, no entanto, tirou do trono o seu mais sólido pilar de sustentação: a aristocracia rural e escravagista representada, principalmente, pelos barões do café do Vale do Paraíba.

Para os senhores de escravos, a abolição havia sido um atentado contra o direito de propriedade. Eles consideravam os cativos um bem particular, tão valioso quanto as fazendas, as lavouras de café e cana, os engenhos de açúcar e outros itens de seu patrimônio. Forçados a aceitar o fim da escravidão depois de décadas de resistência, exigiam que o governo concordasse, ao menos, em indenizá-los pelos prejuízos que julgavam sofrer. Os abolicionistas, porém, discordavam desse ponto de vista. Um deles, o engenheiro André Rebouças, sustentava que, após a abolição, quem deveria receber indenização não eram os proprietários, mas os escravos em razão do trabalho forçado e dos abusos a que foram submetidos ao longo da vida.

O governo adotou essa linha por uma questão prática: aos preços vigentes na época da Lei Áurea, os 700 000 escravos ainda existentes no país valeriam cerca de 210 milhões de contos de réis, enquanto que o orçamento geral do império não passava de 165 milhões de contos de réis. Indenizar os senhores de escravos seria, portanto, impossível. Ao ver suas reivindicações ignoradas, a aristocracia rural sentiu-se traída pela monarquia. Como resultado, nos meses seguintes à assinatura da lei, aderiu em massa à causa republicana”.

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11 de maio de 2015

Meu novo desafio: uma Historia da Escravidão no Brasil

Desde o lançamento do meu último livro, 1889, sobre a Proclamação da República, leitores e amigos tem me perguntado com frequência qual seria a minha próxima obra. São muitos os temas que me atraem na história do Brasil. Por isso, relutei por algum tempo a dar uma resposta conclusiva. Chegou a hora de desfazer o mistério. Meu novo projeto editorial é uma série de três livros sobre a história da escravidão no Brasil, com previsão de lançamento a partir de 2019. Eu acredito que, 127 anos depois da assinatura da Lei Áurea pela Princesa Isabel, esse é um passivo histórico que os brasileiros ainda não conseguiram resolver. O grande abolicionista pernambucano Joaquim Nabuco afirmava que o Brasil estava condenado a continuar no atraso enquanto não resolvesse de forma satisfatória a herança escravocrata. Para ele, não bastava libertar os escravos. Era preciso incorporá-los à sociedade como cidadãos de pleno direito, o que até hoje não aconteceu de fato. Por essa razão, escolhi a escravidão como tema dessa nova trilogia. Acredito seja o assunto mais importante de toda a nossa história.

O Brasil foi o maior território escravagista do hemisfério ocidental por mais de 350 anos. Estima-se que de um total de onze milhões de cativos africanos trazidos para as Américas 40% tiveram como destino as senzalas brasileiras. Foi também o país que mais tempo resistiu a por fim ao tráfico negreiro e o último do continente americano a abolir a mão de obra escrava pela chamada Lei Áurea, de Treze de Maio de 1888 – quatro anos depois de Porto Rico e dois depois de Cuba. O tráfico de escravos era um negócio gigantesco, que movimentava centenas de navios e milhares de pessoas dos dois lados do Atlântico.

Tenho vários outros projetos em andamento, incluindo iniciativas na área audiovisual e livros em coautoria que serão anunciados em breve, mas a escravidão é o tema que vai dominar minha agenda pelos próximos seis ou sete anos. É um trabalho de longo prazo, para ser concluído em 2021 ou 2022, porque exige pesquisas exaustivas em bibliotecas, museus e centros de estudos no Brasil e outros países. A bibliografia é enorme, com centenas de livros publicados aqui e no exterior. Como são livros-reportagem, vou percorrer três continentes – África, Europa e Américas – com o objetivo de entrevistar pessoas e visitar dezenas de lugares relacionados à história da escravidão, como os pontos de onde partiam os navios negreiros na costa da África e as regiões de desembarque no Brasil, no Caribe e nos Estados Unidos.

Espero que os leitores tenham paciência de aguardar por tanto tempo essa nova trilogia – e, principalmente, que gostem do resultado!

A escravidão retratada por   Debret: passivo histórico

A escravidão retratada por Debret: passivo histórico

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6 de maio de 2015

Na terra de Pedro Álvares Cabral

Na próxima semana embarco para Portugal com o objetivo de participar dos eventos lançamento do meu livro mais recente, “1889″, sobre a Proclamação da República no Brasil, no mercado editorial português. A agenda oficial começa em Lisboa com uma palestra na Casa da América Latina, no dia 21, às18h30. No dia seguinte, 22, estarei no Teatro Municipal de Vila Real, às 21h30, participando do programa Viagem Literária, da Porto Editora, ao lado do escritor Richard Zimler e do jornalista João Paulo Sacadura. No dia 24, será a vez da heróica cidade do Porto, onde converso com os leitores no evento Porto de Encontro, a ser realizado na Casa das Artes com apresentação do jornalista, professor (e meu amigo pessoal) Carlos Magno. Por fim, no dia 28, às 17h, estarei na Feira do Livro de Lisboa para uma sessão de autógrafos no espaço do Grupo Porto Editora.

Um evento em particular, no entanto, tem especial importância para nós brasileiros, embora não esteja no roteiro oficial de lançamentos. É uma visita à cidade de Belmonte, dia 26 de Maio, onde me apresento à noite no Museu Judaico. Fundada no Século 12, Belmonte pode ser considerada o local em que o Brasil começou porque ali nasceu o navegador Pedro Álvares Cabral, comandante da expedição que chegou a Porto Seguro, na Bahia, no dia 22 de abril de 1500, iniciando a história da colonização portuguesa na América. Terei como anfitriões o os jornalistas José Venâncio Resende e José Levy Domingos (que também é historiador), dois portugueses com profundo interesse pelo Brasil e sua história.  Em Belmonte, além de conversar com os leitores no auditório do Museu Judaico, visitarei o Museu dos Descobrimentos, o Panteão dos Cabrais ( onde estão as cinizas de Pedro Alvares Cabral e o tumulo de seus familiares), o Castelo ( onde terá nascido o navegador Cabral) e a Biblioteca Municipal.

Belmonte é também conhecida pela história da resistência dos judeus sefaraditas à intolerância religiosa na Península Ibérica.

Agradeço desde já a José Venâncio e José Levy a gentileza do convite. Na minha passagem por Belmonte, escreverei aqui outros posts para compartilhar com meus leitores brasileiros e portugueses novas informações sobre Pedro Álvares Cabral e alguns mistérios relacionados ao descobrimento do Brasil que ainda hoje desafiam os historiadores.

http://pt.wikipedia.org/wiki/Belmonte_(Portugal)

 

 

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28 de abril de 2015

Minha homenagem ao provocador Antonio Abujamra

Morreu hoje em São Paulo, aos 82 anos, o ator, diretor teatral e apresentador Antonio Abujamra, o maior provocador cultural brasileiro da atualidade. Fui entrevistado por ele na TV Cultura em novembro de 2013. Confesso que foi uma das entrevistas mais difíceis que dei até hoje. Na época, Abujamra já estava bastante debilitado fisicamente e tinha dificuldade para ouvir. Antes da gravação, pediu que eu falasse “bem alto”. Quando começou o programa, dei-me conta de que “bem alto” significava responder aos gritos, coisa a que normalmente não estou habituado. Algumas perguntas, típicas de Abujamra, me deixaram desconcertado. “Laurentino, qual é o sentido da vida?”, fustigou ele a certa altura. Pego de surpresa, limitei-me a balbuciar, sem muita convicção: “Acho que todos nós estamos aqui com um propósito, que é tentar melhorar o mundo e ajudar as pessoas que nos rodeiam, de acordo com as nossas limitações e possibilidades individuais”. Ele não seu deu por vencido e disparou novamente em minha direção: ‘LAURENTINO GOMES, QUAL É O SENTIDO DA VIDA???”. Ao que eu, constrangido, me vi obrigado a capitular: “Abujamra, eu não faço a menor ideia!”. Para minha felicidade, ele teve a gentileza de cortar esse trecho na edição final do programa. Ou seja, a versão final da entrevista ficou muito melhor do que a gravação original. O tempo todo me tratou com muito carinho e gentileza. No final, me deu um longo abraço e me desejou boa sorte. Fica aqui o link dessa entrevista, como minha última homenagem a Antonio Abujamra, que por longos14 anos desconcertou entrevistados como eu para sorte e encantamento  dos telespectadores da TV Cultura.

 

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