2 de março de 2015

Os 140 anos da Rua Primeiro de Março, a mais famosa do Rio de Janeiro

   Shows, inaugurações de obra, jogos de futebol, queima de fogos de artifícios, missas e outras celebrações marcaram os 450 anos de fundação do Rio de Janeiro neste último domingo. Junto com a cidade, porém, também faz aniversário esta semana em números redondos a sua mais famosa rua. São 140 anos da Rua Primeiro de Março.

   Situada no centro da cidade, a Rua Primeira de Março ganhou esse nome em 1875 em comemoração à vitória brasileira na Batalha de Aquidaban, que marcou o fim da longa e sangrenta Guerra do Paraguai. Até então chamava-se Rua Direita, nome que, por sua vez, indicava desde os tempos coloniais um caminho relativamente reto ligando o antigo Morro do Castelo ao Mosteiro de São Bento, dois ícones da geografia da cidade.

   Praticamente todos os grandes eventos históricos do Rio de Janeiro – e do próprio Brasil – tiveram como cenário a atual Rua Primeira de Março, ou sua antiga denominação. Na cadeia velha, situada na margem direita dessa via, onde hoje funciona o Palácio Tiradentes, ficou preso  o alferes Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, herói da Inconfidência Mineira, antes de ser enforcado em 21 de abril de 1792. Alguns metros mais adiante, no Paço Real (depois Paço Imperial e hoje Paço da Cidade), instalou-se em 1808 o príncipe regente Dom João e sua familia, recém-chegados de Portugal após a invasão da metrópole pelas tropas do imperador francês Napoleão Bonaparte.

   Em 1808, o Rio de Janeiro tinha apenas 75 logradouros públi­cos, sendo 46 ruas, quatro travessas, seis becos e dezenove campos ou largos.Os nomes das ruas ajudam a explicar sua atividade: Praia do Sapateiro (atual Praia do Flamengo), Rua dos Ferradores (atual Alfândega), Rua dos Pescadores (Visconde de inhaúma) e Rua dos Latoeiros (Gonçalves Dias). A via principal era a Rua Direita. Ali ficavam a casa do governador, a alfândega e, mais tarde, o Convento do Carmo, a Casa do moeda e o próprio Paço Real.

   Na Capela Real, situada perto do antigo Paço Imperial do lado oposto da Rua Primeiro de Março, casaram-se em 1817 os príncipes Pedro e Leopoldina, futuros imperadores do Brasil. No mesmo local ocorreria cinco anos mais tarde a coroação de Dom Pedro I, cerimônia que se repetiria em 1840, quando seu filho, Dom Pedro II, ainda adolescente, ascendeu ao trono para governar o país por quase meio século. Tambem pela Rua Primeiro de Março desfilaria o marechal Deodoro da Fonseca com suas tropas depois de derrubar a monarquia brasileira na manhã de Quinze de Novembro de 1889.

   A primeira sorveteria brasileira foi inaugurada, em 1835, na então Rua Direita. Também foi essa a primeira rua em todo o país dotada de numeração das casas, proposta do arquiteto francês Pedro Alexandre Covroé. Em 1847, foi cenário de outra grande novidade: a adoção do sistema de mão e contra-mão, destinado a organizar o caótico trânsito de cavalos, carroças e carruagens.

   Fica aqui, portanto, um brinde à Rua Primeiro de Março, importantíssimo marco histórico brasileiro, com direito a assoprar também a sua velinha de aniversário na semana dos 450 anos da cidade do Rio de Janeiro!

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25 de fevereiro de 2015

Eu e meu sósia, Carlos Alberto Sardenberg

Sardenberg e eu: separados ao nascer?

Sardenberg e eu: separados ao nascer?

Lauren Sardenberg

Algum tempo atrás, ao desembarcar de um vôo de Nova York no Aeroporto de Guarulhos, uma senhora simpática, bem vestida e educada aproximou-se de mim e, discretamente, cochichou ao meu ouvido:

– Gosto muito dos seus comentários na CBN.

Pego de surpresa depois de uma noite mal dormida, demorei alguns segundos até me dar conta de que a ilustre passageira provavelmente se referia à famosa rede noticiosa de rádio, ouvida por milhões e milhões de brasileiros todos os dias. Mas por que “os seus comentários”? Já fui entrevistado diversas vezes pela CBN, mas nunca tive a honra de ser comentarista da rede.

Tratava-se, na verdade, de um mal-entendido que tem me acompanhado com certa frequência nos últimos anos.

Meses antes desse vôo de Nova York, eu estava tomando café em outro aeroporto brasileiro, o de Curitiba, quando percebi que, do outro lado do balcão, um jovem me olhava com insistência fora do comum. Depois de dois ou três minutos, ele finalmente tomou coragem, apontou o dedo para mim e disparou em voz alta:

– Carlos Alberto Sardenberg?

– Não, Laurentino Gomes, respondi, para óbvia decepção do meu interlocutor.

Muitas pessoas me confundem com o jornalista, apresentador e comentarista da CBN Carlos Alberto Sardenberg. O motivo? Somos sósias quase idênticos na aparência, como se fôssemos irmãos gêmeos separados ao nascer. Basta comparar nossas fotografias.

Intrigado com esse fenômeno, fui ao Google em busca de explicações. Segundo um artigo que li na internet, todos nós temos sósias. Um só não, mas sete. A probabilidade estatística de haver um ser humano igual a você que no momento me lê nest post é de uma para um bilhão. O que significa que, em algum lugar deste vasto, belo e tão maltratado planeta, existem mais outras sete pessoas com aparência semelhante à sua.

Já ouvi falar de pessoas que são sósias de Ana Maria Braga, Elvis Presley, Adolf Hitler, Rubinho Barrichelo, Felipão, José Sarney, Tiririca, Fernando Henrique Cardoso, Lula, Dilma Roussef. Dependendo dos sonhos e das convicções de cada um, isso pode ser uma benção ou uma maldição.

Comigo, felizmente, Deus foi generoso e me fez sósia de um grande jornalista, um dos mais respeitados e admirados da minha geração.

Dias atrás, reencontrei Carlos Alberto Sardenberg em um restaurante de São Paulo.Como nos conhecemos há muitos anos, levantei-me para cumprimentá-lo. Ele veio em minha direção com o largo sorriso de sempre e, antes que nos abraçássemos, avisou:

– Você não faz ideia de quantos livros já autografei no seu nome: toda vez que vou a uma livraria, alguém acha que eu sou você!

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Boas razões para visitar o Museu Histório Nacional do Rio de Janeiro

O belo e bem cuidado Museu Histórico Nacional, do Rio de Janeiro, está fazendo uma campanha para atrair visitantes em consequência de uma série de notícias ruins envolvendo outros museus da cidade. Uma delas foi o fechamento, por alguns dias no mês de janeiro, do Museu Nacional, situado na Quinta da Boa Vista, no Bairro de São Cristóvão, por falta de repasse de verbas federais. Para piorar a situação, há outro museu fechado no Parque da Cidade, na Gávea. É o Museu Histórico da Cidade. A semelhança nos nomes gerou confusão junto ao público.

Localizado no centro do Rio de Janeiro, próximo ao Aeroporto Santos Dumont, o Museu Histórico Nacional está aberto, funcionando normalmente, de terça a sexta-feira, das 10 h às 17h30m, e aos sábados, domingos e feriados, das 14h às 18h. A direção esclarece que as obras realizadas no entorno do museu não inviabilizam a entrada do público pelo portão principal, voltado para a Baía da Guanabara  (estacionamento gratuito no local).

Boas razões para visitar o Museu Histórico Nacional é que não faltam. No calabouço do edificio que hoje abriga o museu foi esquartejado, em 1792, o corpo do alferes Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, herói da Inconfidência Mineira executado na forca por ordem da rainha Maria I de Portugal. Outro acontecimento histórico dramático ocorreu na frente do prédio em Cinco de Novembro de 1897. Foi o atentado contra o então presidente da República, Prudente de Morais, que visitava o local. Marcelino Bispo, um anspeçada (posto inferior ao de cabo, hoje inexistente na hierarquia do Exército), tentou matá-lo a facadas. Prudente foi salvo pela interferência do ministro da Guerra, general Carlos Machado Bittencourt, que, ao se interpor entre ele e o assassino, recebeu os golpes fatais, morrendo em seguida.

As exposições de longa duração voltadas à História do Brasil, a  Loja do Museu e o Bistrô The Line,  assim como todas as demais atividades  educativas e de pesquisa, estão funcionando normalmente, à espera dos visitantes!

Também é possível acompanhar todas as novidades do Museu Histórico Nacional através do facebook: https://www.facebook.com/MuseuHistoricoNacionalRJ

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20 de fevereiro de 2015

Cadeia para os corruptos do Brasil de Dom João VI

 

A cerimônia do beija-mão no reinado de Dom João: uma corte corrupta e perduláriaque vivia da troca de favores da monarquia

A cerimônia do beija-mão no tempo de Dom João: uma corte corrupta que vivia da troca de favores da monarquia

A presidente Dilma Roussef acaba de fazer uma declaração surpreendente a respeito da história da corrupção no Brasil. Segundo ela, empreiteiras e políticos flagrados na chamada Operação Lava Jato, da Polícia Federal, não teriam roubado tanto dinheiro da Petrobrás se lá atrás, nos Anos 90, o governo Fernando Henrique Cardoso tivesse iniciado investigações para apurar desvios na estatal. No entender da presidente, em vez de punir de forma exemplar as empresas corruptoras, o melhor agora é fazer um acordo para que elas continuem funcionando, de modo a preservar empregos e assegurar o crescimento da economia.

Em outra palavras: para que revirar lama nova se já existe muito lodo depositado no fundo deste vasto e escuro pântano chamado Brasil?

Eu tenho uma proposta melhor: que tal investigar os casos de corrupção durante o governo do rei Dom João VI no Brasil? Lá se vão mais de duzentos anos e, até agora, ninguém foi punido. Mãos à obra, portanto. Hora de botar a Polícia Federal, o Ministério Público, a Tribunal de Contas da União, a Advocacia Geral da União e todos os demais recursos que o país tiver disponíveis para punir os corruptos do Brasil Joanino. Evidências é que não faltam. As denúncias são tantas que renderam dois capítulos inteiros no meu livro “1808”.

O regime de toma-lá-dá-cá que se estabeleceu no Brasil depois da chegada da familia real de Dom João, em 1808, foi escabroso. Na opinião do historiador Manuel de Oliveira Lima, os treze anos de pernamanência da corte portuguesa no Rio de Janeiro foram um dos períodos de maior corrupção na história brasileira  – com a ressalva de que Oliveira Lima morreu há quase cem anos e não teve a oportunidade avaliar o que aconteceu depois disso. “A corrupção medrava escandalosa e tanto contribuía para aumentar as despesas, como contribuía o contrabando para diminuir as rendas”, escreveu o historiador pernambucano.

Uma herança da época de Dom João é a prática da “caixinha” nas concorrências e pagamentos dos serviços públicos. Oliveira Lima, citando os relatos do inglês Luccock, diz que cobrava-se uma comissão de 17% sobre todos os pagamentos ou saques no tesouro público. Era uma forma de extorsão velada: se o interessado não comparecesse com os 17%, os processos simplesmente paravam de andar.

No Rio de Janeiro, a corte portuguesa estava organizada em seis grandes setores administrativos – chamados de repartições. Os responsáveis por essas repartições passariam para a história como símbolos de maracutaia e enriquecimento ilícito. A área de compras e os estoques da casa real eram administrados por Joaquim José de Azevedo. Bento Maria Targini comandava o erário real. Os dois eram muito próximos de Dom João e Carlota Joaquina, convivendo na intimidade da família real, o que lhes dava poder e influência que iam muito além das suas atribuições normais. De seus departamentos saíam a comida, o transporte, o conforto e todos os benefícios que sustentavam os milhares de dependentes da Corte. Seus amigos tinham tudo. Seus inimigos, nada.

No Brasil, Azevedo enriqueceu tão rapidamente e teve sua imagem de tal modo ligada à roubalheira que no retorno de Dom João VI, em 1821, foi impedido de desembarcar em Lisboa pelas cortes portuguesas. A proibição em nada perturbou sua bem-sucedida carreira. Ao contrário. A família continuou enriquecendo e prosperando depois da Independência. Em maio de 1823, a viajante inglesa Maria Graham foi convidada para a noite do espetáculo de gala que celebraria a primeira constituinte do Brasil independente. Ao chegar ao teatro, dirigiu-se ao camarote da mulher de Azevedo, de quem era amiga, e surpreendeu-se com o que viu. A anfitriã estava coberta com diamantes que, na estimativa de Graham, valeriam cerca de 150 000 libras esterlinas, o equivalente hoje a 34 milhões de reais. Segundo a inglesa, na ocasião a mulher também se vangloriou de ter deixado guardado em casa outro tanto de jóias de igual valor.

De origem italiana, Targini era de pobre e humilde. Entrou no serviço público como guarda-livros, um trabalho menor na burocracia do governo da colônia. Como era inteligente e disciplinado, virou escrevente do erário e logo chegou ao mais alto cargo nesta repartição. Com a chegada da realeza ao Brasil, passou a acumular poder e honrarias. Encarregado de administrar as finanças públicas, o que incluía todos os contratos e pagamentos da Corte, enriqueceu rapidamente. Também foi proibido de retornar a Portugal com D. João VI, mas continuou a levar uma vida tranqüila e confortável no Brasil.

O poder desses dois personagens, Azevedo e Targini, era tão grande que, em reconhecimento aos seus serviços, durante o governo de Dom João VI ambos foram promovidos de barão a visconde. O primeiro tornou-se o Visconde do Rio Seco. O segundo, Visconde de São Lourenço. A promoção dos dois corruptos fez com que os cariocas, fiéis a sua vocação de satirizar até suas próprias desgraças, celebrizassem a roubalheira em versos populares:

“Quem furta pouco é ladrão

Quem furta muito é barão

Quem mais furta e esconde

Passa de barão a visconde”.

Fica aqui, portanto, a minha sugestão: melhor deixar para lá os corruptos da Operação Lava Jato e correr atrás dos larápios do Brasil Joanino.

Cadeia neles!!!

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