8 de outubro de 2014

Sugestão de leitura: “Getúlio” de Lira Neto

 

Getúlio Vargas: o mais importante personagem da nossa história republicana

Getúlio Vargas: o mais importante personagem da nossa história republicana

Acabo de ler, com absoluto encantamento, aquela que, acredito, seja a melhor biografia histórica escrita no Brasil em muitos anos. Trata-se de “Getúlio”, do jornalista e escritor cearese Lira Neto, obra em três volumes que somam quase 1.700 páginas, publicada pela Companhia das Letras ao longo dos últimos três anos. É um desafio de proporções gigantescas, do qual Lira Neto se incumbiu com talento e brilhantismo inigualáveis – o que também o coloca desde já na galeria dos grandes biógrafos nacionais.

O gaúcho Getúlio Vargas é o mais importante personagem da história republicana brasileira. Herdeiro do positivismo de Julio de Castilho e Borges de Medeiros no Rio Grande do Sul, encampou como ninguém a divisa do filósofo francês August Comte inserida na bandeira na nacional: Ordem e Progresso. Adversário da democracia representativa, chegou ao poder pela força das armas, na chamada Revolução de 30, que derrubou o presidente Washington Luiz e pôs fim à República dos Fazendeiros, também conhecida como da política dos governadores ou do café-com-leite, marcada pelo clientelismo, pela corrupção e pela fraude eleitoral. Esmagou a Revolução Constitucionalista de 1932, em que os paulistas se levantaram contra seus métodos autoritários. Cinco anos mais tarde, rasgou a Constituição e passou a governar com poderes absolutos como ditador do chamado Estado Novo, em que a imprensa foi censura e os adversários perseguidos, presos, exilados e torturados.

Nos Anos 30, Getúlio namorou publicamente com o nazismo de Hitler e o fascismo de Mussulini. Desencadeada a Segunda Guerra Mundial, no entanto, cedeu às pressões americanas e enviou tropas brasileiras à Itália para combater ao lado das forças aliadas. Vítima ele próprio de um novo golpe militar, em 1945, refugiou-se na sua fazenda de São Borja, interior gaúcho, de onde voltaria nos braços do povo para ocupar uma vez mais a Presidência, desde vez pelo voto popular, em 1951. O desfecho deste segundo governo, no entanto, seria tráfico: acusado de desmandos e casos de corrupção, submetido à pressão dos militares, que exigiam sua renúncia, Getúlio suicidou-se com um tiro no peito na manhã de 24 de agosto de 1954. Jamais houve tão grande comoção nas ruas do país como a que se viu nas semanas seguintes. Na famosa carta-testamento, Getúlio acusava as chamadas forças ocultas – mais tarde invocadas também por Jânio Quadros para justificar a inesperada renúncia – de conspirar contra ele e os interesses dos trabalhadores. “Saio da vida para entrar na História”, encerrava o texto.

Nas quase duas décadas em que governou o Brasil, Getúlio transformou profundamente as leis, os costumes, a economia e quase todos os aspectos da realidade nacional. Coube a ele, entre outras iniciativas importantes, a criação da CLT, a lei que ainda hoje rege as relações de trabalho no Brasil. Em troca do apoio aos aliados na Segunda Guerra, arrancou os americanos o dinheiro necessário para a construção da primeira grande usina siderúrgica brasileira, a CSN de Volta Redonda, marco do processo de industrialização desse período. De sua caneta saíram também os decretos que criaram empresas e instituições importantes, como a Petrobrás, a Eletrobrás e a atual Fundação Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE).

O que me encanta no Getúlio de Lira Neto, porém, é menos o estadista e o reformador do que o ser humano em carne e osso, agente às vezes involuntário e casual submetido a pressões poderosas da História. Uma sombra sinistra, prenúncio do seu fim trágico, parece acompanhar o personagem desde os anos de formação ainda no Rio Grande do Sul. Há uma espécie de pulsão de morte na sua trajetória. A ideia do suicídio aparece repetidas vezes nas suas anotações e diários. No dia 3 de outubro de 1930, data da eclosão da Revolução que o levaria ao poder pela primeira vez e quase meio século antes do tiro que lhe tirou a vida no Palácio do Catete, Getúlio escreveu: “Aproxima-se a hora. (…) E se perdermos? (…) Sinto que só o sacrifício da vida poderá resgatar o erro de um fracasso”. Três dias mais tarde, já a bordo do comboio revolucionário que rumava para o Rio de Janeiro, anotou novamente estar “dedicido a não regressar com vida (…) se não for vencedor”. Dois anos mais tarde, em 10 de julho de 1932, dia seguinte ao estopim da Revolução Constitucionalista em São Paulo, mais uma anotação de cores tenebrosas: “Escolho a única solução digna para não cair na desonra,nem sair pelo ridículo”, escreveu Getúlio dizendo-se disposto a “morrer como soldado”.

Sessenta anos depois de sua morte, Getúlio Vargas permanece como um dos mais controvertidos personagens da historia do Brasil, como bem aponta Lira Neto no desfecho de sua magistral biografia. “Para muitos, foi o grande responsável pela modernização do Brasil”, observa o biógrafo. “Para outros, contudo, o chamado populismo varguista seria a expressão mais pronta e acabada do uso das massas como instrumento de dominação política.”

A dimensão da polêmica é, na verdade, proporcional ao tamanho do próprio personagem. Por isso, ‘Getúlio” de Lira Neto é leitura obrigatória para quem deseja entender um pouco melhor o nosso Brasil de hoje.

 

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23 de setembro de 2014

Os 180 anos da morte de Pedro I do Brasil, Pedro IV de Portugal

 

Dom Pedro: herói brasileiro e português

Dom Pedro: herói brasileiro e português

Nesta quarta-feira, dia 24 de setembro de 2014, completam-se 180 anos da morte do primeiro imperador do Brasil. Dom Pedro I, também conhecido em Portugal com o nome de Dom Pedro IV, morreu às 14h30 de 24 de setembro de 1834, a duas semanas e meia de completar 36 anos. Estava no mesmo quarto em que nasceu, no Palácio de Queluz, alguns quilômetros ao norte de Lisboa, onde, por uma feliz coincidência, também estou hoje em uma viagem de pesquisas. O texto a seguir é um trecho do capítulo “O Fim”, do livro meu livro 1822, onde descrevo as circunstâncias da morte de Dom Pedro, com as respectivas referências bibliográficas:

“Até na morte D. Pedro continuou dividido entre Brasil e Portugal. Em 1972, ano do Sesquicentenário da Independência, seus restos mortais foram trasladados da Igreja de São Vicente de Fora, local do sepultamento em Lisboa, para o Mausoléu do Ipiranga, em São Paulo, onde hoje é reverenciado pelos brasileiros. Seu coração, no entanto, permanece guardado na Igreja da Lapa, situada na heróica cidade do Porto e fundada no século 18 por iniciativa de um músico e missionário paulista, o padre Ângelo de Sequeira[i]. Foi seu último desejo antes de morrer, em sinal de gratidão aos “tripeiros”, como são carinhosamente conhecidos os moradores do Porto e em cuja companhia havia enfrentado os momentos mais incertos e difíceis de sua vida, na guerra contra o irmão D. Miguel.

D. Pedro morreu nos braços da imperatriz Amélia às 14h30 de 24 de setembro de 1834, faltando duas semanas e meia para completar 36 anos. A autópsia, feita no dia seguinte, revelou um quadro devastador. A tuberculose tinha consumido todo o pulmão esquerdo, inundado por um líquido negro e sanguinolento. Apenas uma pequena porção da parte superior ainda funcionava. O coração e o fígado estavam hipertrofiados, ou seja, bem maiores do que o normal. Os rins, onde foi encontrado um cálculo, apresentavam cor esbranquiçada. O baço, amolecido, começava a se dissolver[ii].

Os transtornos físicos, que já eram antigos em D. Pedro, agravaram-se na guerra contra o irmão. Durante o cerco do Porto começou a sentir cansaço, irregularidade na respiração, palpitações noturnas e sobressaltos ao acordar. Um edema nos pés indicava problemas circulatórios[iii]. “D. Pedro julgava ser um homem fisicamente robusto, forte, resistente”, observou o historiador Eugênio dos Santos. “A verdade era, porém, outra. Alimentava-se mal, repousava pouco, gastava-se excessivamente” [iv]. Epilético desde a infância, sofria de deficiência renal e vomitava com freqüência. Aventureiro e destemido, partira diversas costelas em quedas a cavalo. As doenças venéreas eram recorrentes, como ele próprio registrara nas famosas cartas à Marquesa de Santos.

Diante de um quadro de saúde tão frágil, seus dias finais foram surpreendentes. D. Pedro enfrentou a morte como viveu, mantendo um ritmo intenso de atividades. No seu último compromisso oficial, a 27 de julho, tinha ido ao Porto. Foi recebido com fogos, repicar de sinos, salvas de canhões e festejos na rua. Ali passou dez dias animados e felizes. Ao partir sabia que jamais voltaria: “Adeus Porto, nunca mais te verei”, teria dito. A saúde piorava rapidamente. Pálido, tinha a pele macilenta e precocemente envelhecida. A longa barba escondia o rosto magro, no qual se destacavam os olhos fundos, sem brilho e emoldurados por grossas olheiras.

Nas primeiras semanas de setembro, teve uma noite repleta de maus presságios. Sonhou que morreria no dia 21. Contou isso à imperatriz Amélia. Errou por apenas 72 horas[v].  Enquanto agonizava no Palácio de Queluz, construído no século anterior pelo seu avô, D. Pedro III de Portugal – e no mesmo leito em que a mãe, Carlota Joaquina, o dera à luz – promoveu sucessivas reuniões com deputados, ministros e auxiliares, nas quais tomou decisões, pediu providências, distribuiu conselhos e, por fim, prestou homenagens a todos aqueles que julgava merecedores de sua gratidão. A seu pedido, os deputados decretaram a maioridade da rainha D. Maria II, cujo primeiro ato oficial foi conceder ao pai a Grã Cruz da Torre e Espada, a mais alta honraria portuguesa.

Ainda no leito de morte, aconselhou a filha que concedesse liberdade a todos os presos políticos, sem exceção. Pediu também que, no seu enterro, não houvesse exéquias reais, como mandava o protocolo. Queria ser enterrado em caixão de madeira simples, como um soldado, comandante do exército português. Em seguida, mandou chamar um soldado do Batalhão de Caçadores 5, famoso pela resistência no Cerco do Porto, de que era coronel honorário. A escolha recaiu sobre o soldado número 82, Manuel Pereira, de 37 anos, nascido na ilha de São Jorge, nos Açores. Recostado nas almofadas da cama, D. Pedro lançou o braço direito sobre o pescoço do companheiro de trincheiras e lhe sussurrou: “Transmite aos teus camaradas este abraço em sinal da justa saudade que me acompanha neste momento, e do apreço em que sempre tive seus relevantes serviços”. Com as pernas trêmulas, o soldado teve um choro convulsivo e foi consolado pelo imperador moribundo[vi].

Algumas semanas mais tarde, um menino de olhar tristonho e melancólico, o futuro imperador Pedro II do Brasil, recebeu duas cartas no Rio de Janeiro. Traziam notícias da morte do pai. A primeira, da madrasta Amélia, dava detalhes da autópsia e enviava, enfim, a mecha de cabelo que o pequeno príncipe havia pedido algum tempo antes a D. Pedro na tentativa de amenizar as saudades que o dilaceravam. A segunda carta era de José Bonifácio, parceiro do pai na Independência brasileira: “Hoje (…) eu vou dar os pêsames pela irreparável perda de seu augusto pai, o meu amigo. (…) D. Pedro não morreu, só morrem os homens vulgares, e não os heróis… sua alma imortal vive no céu para fazer a felicidade futura do Brasil…” [vii]

Por um curioso fenômeno fotoquímico, o coração de D. Pedro se expande continuamente dentro da ânfora de cristal em que foi depositado após a sua morte, em 1834. Hoje, está tão deformado que a Venerável Irmandade de Nossa Senhora da Lapa, responsável pela sua conservação, decidiu resguardá-lo da curiosidade pública mantendo-o lacrado na escuridão atrás de uma parede da igreja. O último brasileiro autorizado a vê-lo foi o presidente Fernando Henrique Cardoso, em visita oficial à cidade. Desde então, a lápide de pedra que guarda a ânfora nunca mais foi aberta.

Atualmente, dezessete logradouros públicos da cidade do Porto levam nomes associados aos acontecimentos e personagens da história do Cerco. A Rua Nove de Julho recorda o dia da chegada do pequeno e precário exército liberal, vindo dos Açores, em 1832. Outra rua, a do Heroísmo, antiga Rua do Prado, homenageia a desesperada resistência dos soldados em 29 de setembro de 1833. Nessa data, Dia de São Miguel, santo protetor do rei D. Miguel I, as tropas miguelistas romperam as trincheiras cavadas pelos liberais, ocuparam bairros importantes e por pouco não selaram o destino de D. Pedro no Porto. Na vizinha Vila Nova de Gaia, famosa pelos depósitos do vinho do Porto, a Rua General Torres celebra a memória de José Antônio da Silva Torres, comandante das linhas de defesa da estratégica Serra do Pilar.

As estátuas de D Pedro IV sobre um cavalo ocupam também lugares de destaque nas duas maiores cidades portuguesas. No Porto está situada na Praça da Liberdade, a antiga Praça Nova, onde foram enforcados e esquartejados os chefes liberais após a ascensão de D. Miguel ao trono. Em Lisboa, pode ser observada na Praça do Rossio, na Cidade Baixa. Os dois monumentos geralmente produzem sensação de estranheza nos turistas brasileiros em Portugal, que não reconhecem nas feições do rei ali talhado em bronze o herói do Grito do Ipiranga. Curiosamente, os portugueses de hoje tampouco sabem a respeito do jovial príncipe quase imberbe que fez a Independência brasileira. Com os cabelos encaracolados mais longos, a calva levemente pronunciada e o olhar austero, o D. Pedro IV de Portugal parece mais velho, mais sábio e mais sofrido do que o D. Pedro I do Brasil. É como se, depois de abdicar ao trono brasileiro, tivesse reencarnado em Portugal na pele de algum de seus ancestrais mais remotos. Em 1834, o coronel inglês Hugh Owen o descreveu da seguinte forma: “Longa e cerrada barba preta emoldurava o pálido, bexigoso e enérgico rosto do imperador; o olhar firme, penetrante e altivo encarava a pessoa a quem se dirigia e constrangia-a muitas vezes a baixar os olhos” [viii].

Como um espírito luminoso de duas silhuetas, repartido na morte entre as duas pátrias em que nasceu, viveu, lutou e morreu, D. Pedro permanece hoje como um laço de aproximação entre brasileiros e portugueses.”


[i] Eugénio dos Santos, D. Pedro IV, pag. 215

[ii] Alberto Pimentel, A corte de D. Pedro IV, pag. 321 e 322

[iii] Alberto Pimentel, A Corte de D. Pedro IV, Pag. 272

[iv] Eugênio dos Santos, D. Pedro IV, pag 258

[v] Octávio Tarquínio de Sousa, Fatos…, pag. 245

[vi] Alberto Pimentel, A Corte de D. Pedro IV, pag. 313 a 317

[vii] Eugénio dos Santos, D. Pedro IV, pag. 307

[viii] Hugh Owen, O Cerco do Porto, pag. 193

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6 de setembro de 2014

O Grito do Ipiranga

O quadro O Grito do Ipiranga, do pintor Pedro Américo: cena diferente da real

O quadro O Grito do Ipiranga, do pintor Pedro Américo: cena diferente da real

Neste Sete de Setembro, Semana da Pátria, um trecho do primeiro capítulo do livro “1822″ de presente para os leitores:

“O destino cruzou o caminho de D. Pedro em situação de desconforto e nenhuma elegância. Ao se aproximar do riacho do Ipiranga, às 16h30 de Sete de setembro de 1822, o príncipe regente, futuro imperador do Brasil e rei de Portugal, estava com dor de barriga. A causa dos distúrbios intestinais é desconhecida. Acredita-se que tenha sido algum alimento mal conservado ingerido no dia anterior em Santos, no litoral paulista, ou a água contaminada das bicas e chafarizes que abasteciam as tropas de mula na Serra do Mar. Testemunha dos acontecimentos, o coronel Manuel Marcondes de Oliveira Melo, subcomandante da guarda de honra e futuro Barão de Pindamonhangaba, usou em suas memórias um eufemismo para descrever a situação do príncipe. Segundo ele, a intervalos regulares D. Pedro se via obrigado a apear do animal que o transportava para “prover-se” no denso matagal que cobria as margens da estrada[i].

A montaria usada por D. Pedro nem de longe lembrava o fogoso cavalo alazão que, meio século mais tarde, o pintor Pedro Américo colocaria no quadro “O Brado do Ipiranga”, a mais conhecida cena da Independência do Brasil. O coronel Marcondes se refere ao animal como uma “baia gateada”. Outra testemunha, o padre mineiro Belchior Pinheiro de Oliveira, cita uma “bela besta baia” [ii]. Em outras palavras, uma mula sem nenhum charme, porém forte e confiável. Era esta a forma correta e segura de subir a Serra do Mar naquela época de caminhos íngremes, enlameados e esburacados.

Foi, portanto, como um simples tropeiro, coberto pela lama e a poeira do caminho, às voltas com as dificuldades naturais do corpo e de seu tempo, que D. Pedro proclamou a Independência do Brasil. A cena real é bucólica e prosaica, mais brasileira e menos épica do que a retratada no quadro de Pedro Américo. E, ainda assim, importantíssima. Ela marca o início da história do Brasil como nação independente.

O dia 7 de setembro amanheceu claro e luminoso nos arredores de São Paulo[iii]. O litoral paulista, porém, estava frio, úmido e tomado pelo nevoeiro. Faltava ainda uma hora para o nascer do sol quando D. Pedro saiu de Santos, cidadezinha de 4781 habitantes, onde passara o dia anterior inspecionando as seis fortalezas que guarneciam as entradas pelo mar e visitando a família do ministro José Bonifácio de Andrada e Silva. Sua comitiva era relativamente modesta para a importância da jornada que iria empreender. Além da guarda de honra, organizada nos dias anteriores de forma improvisada nas cidades do Vale do Paraíba, enquanto viajava do Rio de Janeiro para São Paulo, acompanhavam D Pedro o coronel Marcondes, o padre Belchior, o secretário itinerante Luís Saldanha da Gama, futuro Marquês de Taubaté, o ajudante Francisco Gomes da Silva e os criados particulares João Carlota e João Carvalho.

Eram todos muito jovens, a começar pelo próprio D. Pedro, que completaria 24 anos um mês depois, no dia 12 de outubro. Padre Belchior, com a mesma idade, nascido em Diamantina, era vigário da cidade mineira de Pitangui, maçom e sobrinho de José Bonifácio. Virou testemunha do Grito do Ipiranga por acaso. Eleito deputado por Minas Gerais para as cortes constituintes portuguesas, convocadas no ano anterior, deveria estar em Lisboa participando dos debates. A delegação mineira, porém, foi a única a permanecer no Brasil por divergências internas e à incerteza a respeito do que se passava em Portugal. Saldanha da Gama, de 21 anos, era, além de secretário itinerante, camareiro e estribeiro mor do príncipe. Tinha o privilégio de ajudá-lo a se vestir e a montar a cavalo. Com 29 anos, Francisco Gomes da Silva, também chamado de “O Chalaça” – palavra que significa zombeteiro, gozador ou piadista – acumulava as funções de “amigo, secretário, recadista e alcoviteiro” de D. Pedro, segundo o historiador Octávio Tarquínio de Sousa[iv]. Ou seja, era um faz tudo, encarregado de arranjar mulheres para o príncipe, proteger seus negócios e segredos pessoais e defendê-lo em qualquer circunstância, por mais difícil e escusa que fosse. Marcondes, o mais velho de todos, tinha 42 anos.”


[i] Octavio Tarquínio de Sousa, A vida de D. Pedro I, vol. 2, pag. 36

[ii] Octavio Tarquinio de Sousa, A vida …, vol. 2, pag. 39

[iii] A descrição do dia 7 de setembro de 1822 tem como fontes principais Afonso A. de Freiras, Revista do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo (IHGSP), vol. 22, pag. 3 e seguintes; Octavio Tarquínio de Sousa, A vida de D. Pedro I, vol. 2, pag. 25 a 42.; e Eduardo Canabrava Barreiros, O Itinerário da Independência, pag. 119 a 157

[iv] Octavio Tarquínio de Sousa, A vida…, vol. 2, pag. 26

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28 de agosto de 2014

Uma fraude na catedral do Rio de Janeiro esconde um segredo na corte de Dom João

Cerimônia do Beija-mão na corte de D. João: o ambiente conservador da familia Marrocos

Cerimônia do Beija-mão na corte de D. João: o ambiente conservador da familia Marrocos

(Este texto é parte de uma série de três posts no meu blog esta semana destinada a atualizar os leitores de 1808 sobre as novidades da edição revista e ampliada da obra. Lançada na Bienal do Livro de São Paulo de 2014 pela Globo Livros, essa nova edição inclui um capítulo inédito sobre a criação do Reino Unido de Brasil, Portugal e Algarves, em dezembro de 1815).

No último capítulo da primeira edição do livro 1808, lançada em 2007, revelei um documento até então inédito na história da corte portuguesa de Dom João no Brasil. É a certidão de batismo de Joaquinna dos Santos Marrocos, filha do arquivista real Joaquim dos Santos Marrocos, encontrada na Catedral da Sé do Rio de Janeiro pelo músico José Marcio Alemagni, que trabalhou comigo na pesquisa da obra. No mesmo capítulo levantei também a hipótese de que Joaquinna tivesse disso entregue para adoção de modo a evitar um escândalo na corte de Dom João.

Alguns anos após a publicação de 1808, no entanto, recebi do pesquisador carioca Marcos Arruda Raposo uma contribuição que muda um pouco essa perspectiva. Essa é uma das novidades incluidas na edição revista e ampliada da obra, lançada na Bienal de São Paulo de 2014. Segundo novos documentos descobertos por Arruda Raposo na mesma Catedral da Sé, Joaquinna nasceu de fato fora do casamento e foi batizada às pressas em junho de 1814 porque corria perigo de vida, mas não teria sido entregue para adoção. Seu nome aparece novamente em registro de novembro do mesmo ano no qual o padre Manoel Simões da Fonseca fez a seguinte anotação: “Baptizei, digo, dei tão somente os Santos Óleos à innocente Joaquinna”.

A ressalva contida nessa frase parece esclarecer o mistério. A esta altura Marrocos e Anna Maria já estavam legalmente casados. O novo registro com a referência apenas à aplicação dos “santos óleos” teria sido uma tentativa de regularizar o batismo feito às pressas e às escondidas nos meses que antecederam o casamento. O padre Manoel Simões, portanto, teria sido cúmplice de uma pequena (e inocente) fraude nos documentos da catedral do Rio de Janeiro, destinada a resguardar a reputação do casal Marrocos.

No banco de dados dos mórmons, o microfilme com as informações sobre Joaquinna dos Santos Marrocos faz parte de um conjunto documental denominado batch número C032065 do International Genealogical Index e pode ser consultado pela Internet no site www.familysearch.org. É composto pelos nomes de 1855 meninas nascidas no Rio de Janeiro entre 1812 e 1816, com algumas poucas exceções do final do século 18. A maioria dessas crianças aparece listada apenas com o primeiro nome. São centenas de Justinas, Honoratas, Inocências, Jezuinas, sem nenhuma referência de parentesco ou sobrenome familiar. Outras são registradas com sobrenomes genéricos, associados a datas, eventos e irmandades religiosas, como “do Espírito Santo”, “da Conceição”, “do Rosário” ou “do Evangelho”.

O único ponto em comum entre elas é que todas foram batizadas no Santíssimo Sacramento da Sé – nome de uma das irmandades religiosas mais antigas do Brasil colônia. Mantida por leigos de alta distinção social, tinha entre suas responsabilidades abrigar e dar assistência a crianças órfãs de mães solteiras de famílias abastadas. Era exatamente esse o caso da noiva de Marrocos. Anna Maria de São Thiago Souza pertencia a uma família rica, de legítima ascendência portuguesa e socialmente bem relacionada.

Identificada com o número 587 no batch C032065 dos mórmons, Joaquinna é uma das raras crianças desse conjunto documental que aparecem com nome e sobrenome da família. Além de suas certidões de nascimento e batismo, não há na Catedral da Sé ou no banco de dados dos mórmons qualquer outra referência ao seu destino. Não se tem notícia se morreu, sobreviveu à infância, casou ou teve filhos. Minha gratidão ao pesquisador Marcos Arruda Raposo pela preciosa contribuição.

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