8 de dezembro de 2014

Uma supresa dentro da caixa de sapatos

Laurentino com a lua

Lua chegou em casa adormecida dentro de uma caixa de sapatos. Recém-nascida, de pelagem negra brilhante, tinha um palmo de comprimento e trazia uma fita vermelha no pescoço. Fora adotada no interior de São Paulo, sem pedigree definido, labradora por parte de mãe e pastor alemão por linhagem de pai, parte de uma prodigiosa ninhada de meia dúzia de filhotes gerada na casa de um amigo e colega jornalista. Nos meses seguintes, enquanto crescia, revelou-se uma voraz devoradora de sofás, pernas de mesas e cadeiras, a tal ponto que, depois de algum tempo, foi preciso refazer quase toda mobília da casa.

Manteve também o curioso hábito de só dormir dentro da caixa de sapatos em que chegara do interior. Era ali que se sentia segura e aconchegada, lembrança do antigo berço que a abrigou nos primeiros dias. Com um ano de idade, o  corpo havia mais do que triplicado de tamanho, de modo que só a cabeça ainda cabia dentro da caixa. Ainda assim, o costume de só dormir dentro da caixa se manteve até que da embalagem original não sobrasse mais do que uma surrada lâmina de papelão, tão suja e amarrotada que teve de ser jogada no lixo. Só então lua aceitou passar a se recolher a uma casinha de madeira acolchoada com almofadas cor-de-rosa, presente da minha filha mais nova.

Aos 58 anos, sou o orgulhoso pai de quatro filhos – dois meninos e duas meninas. Lua é como se fosse o quinto deles. Uma filha felputa, de olhar meigo e carente. Chegou para preencher um vazio existencial que se anunciou insperado e perturbador na minha meia idade. É o que os psicólogos chamam de “síndrome do ninho vazio”, aquele momento em que os filhos alcançam a idade adulta, saem de casa, alçam vôos e começam a descobrir os próprios caminhos.

Graças à decisão temerária (para os tempos de hoje) de ter tantos filhos, durante muito tempo habitei uma casa ruidosa e movimentada, em que se misturavam choros e risadas de crianças, idas e vindas da escola, consultas ao pediatra, fins de semana tomados pelas inevitáveis festas de aniversários e viagens de férias que mais pareciam epopéias cinematográficas do que momentos de descanso.

Fomos também uma família em constante movimento e transformação. Ao longo de três décadas de jornalismo, trabalhei como repórter e editor para diversos jornais e revistas. Nos primeiros anos, morei nas mais diferentes regiões do país: primeiro em Curitiba, no Paraná, onde me formei na faculdade e comecei a carreira; depois em Belém, Recife e Brasília, até finalmente estabelecer-me em São Paulo. Meus filhos me acompanharam nessa jornada brasileira, trocando de casa, de escola, de amigos e de ambiente – aprendendo muito, mas também sofrendo com as rupturas que essas mudanças envolviam.

Fizemos de tudo um pouco, menos realizar um sonho acalentado por muitos anos: ter um cachorro. Achávamos que as reviravoltas seriam para nós mais suportáveis se não tivéssemos a responsabilidade de cuidar de um animal. Estávamos enganados. Lua e as mudanças mais profundas viriam justamente no momento em que nos julgávamos mais estabilizados.

Um livro tem grande poder de transformação. E o primeiro alvo da mudança geralmente é o próprio autor. Minha vida mudou bastante desde que lancei o livro “1808”, na Bienal do Livro do Rio de Janeiro de 2007. Entre outras novidades, deixei o cargo de executivo em uma importante empresa de comunicação, onde trabalhei 22 anos, pondo fim a uma carreira que até então me parecia estável e relativamente segura. Fiz isso para me dedicar totalmente aos livros. Também troquei a cidade de São Paulo, onde vivi durante 21 anos, por Itu, no interior paulista. Morei um ano nos Estados Unidos. Hoje, passo boa parte do tempo em viagens no Brasil e no exterior para fazer pesquisas, dar aulas e palestras, participar de sessões de autógrafos, bienais e feiras literárias, entre outros compromissos relacionados à vida de escritor.

Nesse meio tempo, todos os meus quatro filhos sairam de casa para morar sozinhos. Mais do que isso: espalharam-se pelo mundo. O mais velho é guia turístico em Buenos Aires. O segundo, psicólogo, mora em São Paulo. Uma das filhas faz mestrado em Berlim. A outra, cursa faculdade em Milão. Com o ninho vazio, eu e minha mulher, Carmen, passamos a morar em um condominio bonito e tranquilo, na zona rural de Itu, bem diferente do ambiente agitado que tínhamos em São Paulo.

Lua nos acompanhou em todas essas mudanças. Foi nela que Carmen e eu encontramos a âncora emocional e uma referência de lar nas muitas viagens passamos a fazer desde o lançamento do primeiro livro. É sempre ela que nos recebe com a mesma alegria e a mesma devoção ao retornarmos para casa, geralmente exaustos pela maratona de compromissos.

Quase dez anos depois de chegar ao apartamento de São Paulo dentro de uma caixa de sapatos, lua já apresenta os primeiros sinais da idade relativamente avançada. Os pelos do focinho e da ponta do rabo ficaram embranquecidos. Mais sossegada e tranquila, há muito deixou de roer o móveis. Mora em um canil de alvenaria, espaçoso e confortável, situado nos fundos de casa, o que também faz dela a senhora absoluta de um amplo terreno gramado e repleto de flores e árvores. Durante o dia, persegue passarinhos, lagartos e lebres que, desavisados, se arriscam a entrar em seus domínios. À noite, zela pela segurança dos moradores, latindo ao menor ruído na mata. Nada disso, porém, a faz tão feliz quanto se deitar aos meus pés na varanda de casa, enquanto eu, diante do computador, labuto para encontrar a melhor palavra ou a melhor frase capaz de explicar um personagem ou um acontecimento na História do Brasil. Mais do que uma fiel companheira, lua deveria merecer o crédito de co-autora dos meus livros – coisa que, de fato, ela é.

(Este texto foi publicado originalmente no livro “Amigos do Pelo”, organizado pela jornalista Margot Ferreira, da ONG Amigos do Pelo de Natal-RN. A publicação, da qual tive a honra de participar, reúne contribuições de escritores e artistas como Carlos Heitor Cony, Ferreira Goulart, Fernando Brandt, Fernanda Takay e Nando Reis)

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6 de dezembro de 2014

Sugestão de filme: “O Preço da Paz”, de Paulo Morelli

Lima Duarte Gumercindo 1

Estreia na programação do Canal Brasil deste domingo, Sete de Dezembro, um filme que merece ser assistido por todas as pessoas que se interessam pela História do Brasil. “O Preço da Paz” conta a trágica saga de um dos mártires da primeira fase da história republicana brasileira, o comerciante e fazendeiro Idelfonso Pereira Correia, Barão de Cerro Azul, executado a sangue-frio no dia 20 de maio de 1894 pelos soldados do presidente Floriano Peixoto, o “Marechal de Ferro”,  em um trecho da Serra do Mar na Estrada de Ferro entre Curitiba e Paranaguá. O episódio é narrado no penúltimo capítulo do meu livro mais recente, 1889, sobre a Proclamação da República. Produzido por Maurício Appel (amigo aqui de Facebook), com direção de Paulo Morelli e roteiro de Walter Negrão baseado em livro de Túlio Vargas, “O Preço da Paz”, filme de 2003, ganhou três Kikitos no Festival de Gramado e tem no elenco principal alguns dos astros de primeira grandeza do cinema nacional, como Lima Duante, Herson Capri, Giulia Gam, José de Abreu, Camila Pitanga e Dalton Mello.

Já assisti “O Preço da Paz” três ou quatro vezes. Gosto da obra pela sensibilidade e pelo equilibrio com que trata um dos episódios mais polêmicos e traumáticos da história republicana brasileira, ocorrido durante a chamada Revolução Federalista, guerra civil travada no sul do país entre 1893 e 1895 na qual morreram cerca de 12.000 pessoas. O conflito envolvia rivalidades da política gaúcha e, ao mesmo tempo, ajudou a definir os destinos da recém-proclamada República brasileira. De um lado estavam os maragatos, liderados pelo ex-senador do Partido Liberal Gaspar da Silveira Martins e pelo caudilho uruguaio Gumercindo Saraiva (interpretado por Lima Duarte na foto que ilustra este post). Do outro, os pica-paus, fiéis ao governador do Rio Grande do Sul, Júlio de Castilhos, e seu aliado Floriano Peixoto. Eram chamados assim devido à cor vermelha do uniforme e do quepe que usavam adversários. O termo maragato, por sua vez, referia-se à região espanhola de Maragataria, origem de imigrantes estabelecidos no pampa uruguaio.

Gumercindo Saraiva empreendeu uma épica marcha de 2.500 quilômetros com idas e voltas entre Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná, na qual travou cinco grandes batalhas e setenta combates menores contra os pica-paus de Júlio de Castilhos e Floriano Peixoto. A mais decisiva foi o chamado Cerco da Lapa. Durante 26 dias, essa pequena e bela cidade de arquitetura colonial situada 68 quilômetros ao sul de Curitiba resistiu ao sítio das forças de Gumercindo, que tentavam avançar rumo a São Paulo e Rio de Janeiro.

Vencido o Cerco da Lapa, no dia 20 de fevereiro Gumercindo acampou nos arredores de Curitiba, abandonada pelo governador Vicente Machado, e ameaçou invadir e saquear a capital paranaense, caso as autoridades não lhe pagassem um “empréstimo de guerra”. A agressão foi evitada graças à intervenção do Barão de Cerro Azul. Maior produtor de erva mata do mundo e um dos homens mais ricos do Paraná, Idelfonso conseguiu reunir a soma de dinheiro exigida por Gumercindo e pagar o resgate com a ajuda da Associação Comercial. Alguns dias mais tarde, quando as tropas legalistas de Floriano Peixoto e do general Ewerton Quadros ocuparam a cidade, Idelfonso e outros cinco colaboradores foram presos, sob a acusação de colaborar com os maragatos que, a esta altura, recuavam para o Sul. Colocados em um vagão de trem e levados para a Serra do Mar, foram todos fuzilados e jogados do alto de um precipício.

“O Preço da Paz” pode ser visto até meados de dezembro nos seguintes horários e canais:

Dia 07/12 às 18h30

Dia 09/12 às 15h

Dia 10/12 às 11h30

Dia 12/12 às 8hCANAL BRASIL:
NET HD: canal 650 e NET: canal 150
Oi TV: canal 66
Sky: no canal 55
ClaroTV: canal 67
GVT: canal 103
Vivo: canal 79 – Vivo TV DTH: 806 – Vivo IPTV: 656

NET HD: canal 650 e NET: canal 150

Oi TV: canal 66

Sky: no canal 55

ClaroTV: canal 67

GVT: canal 103

 Vivo: canal 79 – Vivo TV DTH: 806 – Vivo IPTV: 656

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4 de dezembro de 2014

O adeus de Dom Pedro II ao Brasil

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Esta é a última foto da familia imperial no Brasil, tirada em Petrópolis em novembro de 1889, dias antes da Proclamação da República

Esta é a última foto da familia imperial no Brasil, tirada em Petrópolis em novembro de 1889, dias antes da Proclamação da República

  

    Devido a uma coincidência no calendário, esta é uma semana que o Brasil deveria dedicar a Dom Pedro II. O imperador nasceu e morreu na primeira semana de dezembro. Para celebrar seu aniversário de nascimento, em Dois de Dezembro de 1825, publiquei um texto no começo desta semana sobre seu encontro com o inventor do telefone, Alexander Grahm Bell, na Exposição da Filadélfia de 1876. Hoje faço outro post, desta vez para marcar a data do falecimento do monarca. Dom Pedro II morreu no início da madrugada de Cinco de Dezembro de 1891. Acabara de completar 66 anos e estava hospedado no Hotel Berdford, lugar relativamente modesto situado na Rua de l’Arcade, em Paris. O texto a seguir narra a cena do seu adeus ao Brasil na madrugada de Dezessete de Novembro de 1889, dois dias após o golpe militar que pôs fim ao império brasileiro. É parte de um dos capítulos do meu último livro, 1889. Espero que gostem!

    Um vulto se esgueirou pelas ruas mal iluminadas do centro do Rio de Janeiro na madrugada de 17 de novembro de 1889, um domingo. Era o jornalista e escritor Raul Pompéia. Ao chegar ao Largo do Paço, atual Praça XV, encontrou as ruas bloqueadas pelos soldados da cavalaria de armas em punho. Ocultando-se entre as sobras das árvores e edifícios, passou a acompanhar o movimento na praça. O trânsito de pessoas e carruagens havia sido fechado com cordões de isolamento. De tempos em tempos ouviam-se ao longe o disparo de armas de fogo e o crepitar das patas dos cavalos no calçamento das ruas. O clima era de tensão e expectativa. “Sentia-se todo aquele imenso ermo ocupado pela vontade poderosa da revolução”, anotou. De seu posto de observação, Pompéia testemunhou o último ato da monarquia no Brasil, a partida da família imperial para o exílio:

“Às três da madrugada menos alguns minutos, entrou pela praça um rumor de carruagem. Para as bandas do largo houve um ruidoso tumulto de armas e cavalos. As patrulhas que passeavam de ronda retiraram-se todas a ocupar as entradas do largo, pelo meio do qual, através das árvores, iluminando sinistramente a solidão, perfilavam-se os postes melancólicos dos lampiões de gás

Apareceu, então, o préstito dos exilados.

Nada mais triste. Um coche negro, puxado a passo por dois cavalos que se adiantavam de cabeça baixa, como se dormissem andando. À frente duas senhoras de negro, a pé, cobertas de véus, como a buscar caminho para o triste veículo. Fechando a marcha, um grupo de cavaleiros, que a perspectiva noturna detalhava em negro perfil.

Divisavam-se vagamente, sobre o grupo, os penachos vermelhos das barretinas de cavalaria.

O vagaroso comboio atravessou em linha reta, do paço em direção ao molhe do cais Pharoux. Ao aproximar-se do cais, apresentaram-se alguns militares a cavalo, que formavam em caminho.

– É aqui o embarque? Perguntou timidamente uma das senhoras de preto aos militares. O cavaleiro, que parecia oficial, respondeu com gesto largo de braço e uma atenciosa inclinação do corpo.

Por meio dos lampiões que ladeiam a entrada do molhe passaram as senhoras. Seguiu-se o coche fechado.

Quase na extremidade do molhe, o carro parou e o senhor D. Pedro de Alcântara apeou-se – um vulto indistinto, entre outros vultos distantes – para pisar pela última vez a terra da Pátria”[i].



[i]Raúl Pompéia, Uma noite histórica, em Hildon Rocha, Utopias e realidades da República, pag 22 a 27

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1 de dezembro de 2014

Dom Pedro II e a invenção do telefone

Dom Pedro II criança com o tambor o brasão do império brasileiro

 Pedro II criança com o tambor

e o brasão do império brasileiro

Nesta terça-feira comemora-se o aniversário de Dom Pedro II, nascido no Rio de Janeiro na madrugada de Dois de Dezembro de 1825, um ano antes da morte da sua mãe, Leopoldina, e seis antes da abdicação do pai, Dom Pedro I. Para celebrar a data, publico uma curiosa história envolvendo o imperador brasileiro e o inventor do telefone, Alexander Grahm Bell, na Feira da Filadélfia de 1876. O texto é parte de um capítulo do meu último livro, 1889. Espero que gostem!

Em 1876, a jovem república dos Estados Unidos comemorou o primeiro centenário de sua independência com um evento de encher os olhos. Realizada na cidade de Filadélfia, a “Exposição Internacional de Arte, Manufatura e Produtos do Solo e das Minas” ocupava uma área de 1,2 milhão de metros quadrados, igual à soma de 290 campos de futebol ou quase o tamanho do Parque do Ibirapuera, em São Paulo. Reunia 60.000 expositores de 37 países distribuídos em 250 pavilhões e recebeu nove milhões de visitantes, equivalente a 20% da população americana na época. A feira era um símbolo do gênio empreendedor da nova potência industrial emergente da América do Norte.  Entre a últimas novidades da ciência e da tecnologia ali exibidas estavam a Remington Number 1, primeira máquina de escrever comercializada por E. Remington & Sons, um modelo de motor a combustão interna que nos anos seguintes Henry Ford usaria para construir seu primeiro automóvel, e um sistema automático de envio de mensagens telegráficas desenvolvido por Thomas Edison, também inventor da lâmpada elétrica e do fonógrafo (aparelho capaz de reproduzir sons).

Nesse ambiente de excitação e curiosidade, o professor escocês Alexander Graham Bell, de 29 anos, parecia deslocado. Seus primeiros dias na feira foram de desânimo e frustração. Ele trazia de Boston, cidade em que morava, uma engenhoca chamada provisoriamente de “novo aparato acionado pela voz humana”. Ao chegar à Filadélfia descobriu que parte da fiação tinha se extraviado junto com a bagagem. Enquanto tentava recuperá-la às pressas, deu-se conta de que a organização da feira lhe destinara uma pequena mesa de madeira escondida no fundo de um corredor distante. Era um espaço pouco frequentado pelos visitantes e fora do roteiro dos juízes encarregados de avaliar e premiar as invenções. Como se inscrevera na última hora, seu nome sequer aparecia na programação oficial da exposição. A chance de que alguém visse o seu invento era mínima[i].

Tudo isso mudou devido a uma extraordinária coincidência. Em um  final de tarde, o acabrunhado Graham Bell observava à distância, no pavilhão central da feira, os juízes se preparando para ir embora sem ter passado pelo local em que exibia o seu novo aparelho. De repente, uma voz fina e esganiçada chamou-lhe a atenção:

– Mister Graham Bell?

Ao se virar, Graham deparou-se com um senhor de barbas brancas e olhos muito azuis. Usava roupas escuras, cartola e bengala. Era o imperador do Brasil, D. Pedro II. Os dois tinham se conhecido semanas antes, em Boston, onde Graham Bell criara uma escola para surdos-mudos, assunto de grande interesse do soberano. O imperador lhe pedira para assistir a uma das aulas e ficara impressionado com os métodos utilizados pelo jovem escocês. Depois, acompanhado de numerosa comitiva, tinha seguido viagem para a Filadélfia, onde participara da cerimônia de abertura da exposição ao lado do presidente Ulisses Grant.  Primeiro monarca a visitar os Estados Unidos, era a maior celebridade internacional convidada para o evento. Nos três meses anteriores, visitara diversas regiões do país, sempre tratado com deferência e admiração. Sua presença, destacada quase que diariamente nos jornais, atraia multidões de jornalistas e curiosos, exigindo às vezes intervenção da polícia para evitar tumultos. Ao se reencontrar casualmente com Graham Bell no saguão da feira, estava acompanhando os juízes, como convidado de honra, no trabalho de avaliação dos inventos.

O que o senhor está fazendo aqui?, perguntou D. Pedro.

Graham Bell contou-lhe que acabara de patentear um mecanismo capaz de transmitir a voz humana, mas, cheio de modéstia, explicou que se tratava de um protótipo ainda passível de muitos ajustes e aperfeiçoamentos.

– Ah, então precisamos dar uma olhada nisso..., reagiu D. Pedro.

A cena que se seguiu é hoje parte dos grandes momentos da história da ciência. Escoltado pelo imperador do Brasil, por um batalhão de repórteres e fotógrafos e pelos juízes que, àquela altura, tinham desistido de ir embora, Graham Bell esgueirou-se pelas escadas e corredores da exposição até o obscuro local em que haviam confinado a sua aparelhagem. Ao chegar lá, pediu que D. Pedro II se postasse a uma distância de cerca de cem metros e mantivesse junto aos ouvidos uma pequena concha metálica conectada um fio de cobre. Por fim, atravessou a galeria e, no extremo oposto da fiação, pronunciou as seguintes palavras, retiradas da peça Hamlet, de William Shakespeare:

“To be, or not to be” (“Ser, ou não ser”)

Meu Deus, isso fala!, exclamou D. Pedro II. Eu escuto! Eu escuto!

Em seguida, pulando da cadeira, correu ao encontro de Graham Bell para cumprimenta-lo pela proeza.

Mais tarde rebatizado como telefone, o “novo aparato acionado pela voz humana” seria considerado a maior de todas as novidades apresentadas na Exposição Universal da Filadélfia.



[i]O relato da história de Graham Bell na Exposição da Filadélfia é baseado em Candice Millard, Destiny of the republic: a tale of madness, medicine, and the murder of a president, 2011

 

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