7 de abril de 2014

Vai o imperador, fica o jornalista

Duas datas aparentemente contraditórias, mas de grande poder simbólico, marcam o calendário cívico brasileiro neste Sete de Abril. Nesse dia, há exatos 183 anos, o imperador Pedro I abdicou ao trono brasileiro e partiu para a Europa, onde morreria três anos mais tarde. Este é também o Dia do Jornalista.

O que as duas datas tem em comum? Tudo.

O Sete de Abril, data da abdicação do primeiro imperador brasileiro, é também o Dia do Jornalista porque simboliza uma luta permanente entre, de um lado, o autoritarismo e a censura, e, de outro, os direitos à liberdade de imprensa e de expressão no Brasil.

Os últimos meses do reinado de D. Pedro foram de tumultos e sobressaltos em todo o país. Uma onda de boatos indicava que o imperador preparava um golpe absolutista, pelo qual mudaria a constituição de 1824 com o objetivo de reforçar ainda mais os próprios poderes e subjugar o parlamento. Os rumores tinham fundamento. D. Pedro chegou a fazer uma consulta a dois dos auxiliares mais próximos – o seu confessor, frei Antônio de Arrábida, e Francisco Vilela Barbosa, o Marquês de Paranaguá – a respeito da conveniência de reformar a constituição. Frei Arrábida, um homem sábio e prudente, o desaconselhou a levar o projeto adiante de maneira enfática: “Queime, Senhor, o papel que contiver este quesito, que só pensado se julgaria crime. (…) Ele nos arrastaria à mais espantosa ruína”.

Um evento na França contribuiu para acirrar os ânimos. Foi a queda do rei Carlos X, um defensor tardio do absolutismo real, em julho de 1830. Em seu lugar, os franceses colocaram no trono o liberal Luís Felipe, também chamado de “o rei burguês” porque tinha o apoio da nova classe de ricos e comerciantes sem títulos de nobreza que, desde a Revolução Francesa, abalara os alicerces do poder no país. A troca, intensamente comemorada pelos liberais brasileiros, produziu uma tragédia em São Paulo.

Na noite de 20 de novembro o jornalista italiano João Batista Líbero Badaró foi assassinado com um tiro no estômago na porta de casa. Badaró era redator do jornal Observador Constitucional, que sustentava a causa dos liberais e ajudara a organizar uma manifestação de júbilo pelos acontecimentos na França. Suas últimas palavras teriam sido: “Morre um liberal, mas não morre a liberdade”. O crime incendiou os ânimos dos paulistas e colocou a outrora fiel província contra o imperador. Um jornal chegou a apontar D. Pedro I como mandante do assassinato.

Assustado com o rumo dos acontecimentos, D. Pedro decidiu ir a Minas em companhia da imperatriz Amélia. Esperava que os mineiros o acolhessem com o mesmo entusiasmo da épica jornada que antecedera a Independência em 1822. Julgava que de lá voltaria regenerado e fortalecido, exatamente como acontecera às vésperas do Grito do Ipiranga. Desta vez, porém, colheu resultado oposto. Foi uma viagem lenta e melancólica. Saindo do Rio de Janeiro a 29 de dezembro, D. Pedro só entrou em Vila Rica (atual Ouro Preto), a capital da província, quase dois meses depois, a 22 de fevereiro. Encontrou um clima tão ruim entre a população que permaneceu na cidade só dois dias. Em Barbacena, a passagem da comitiva coincidiu com a celebração das exéquias de Líbero Badaró. Em vez de festejar a presença do soberano, os sinos das igrejas dobraram o toque de finados. Em outras localidades, as casas em que ficou hospedado foram apedrejadas depois de sua saída.

Ao retornar o Rio de Janeiro, em 11 de março, quase três meses após a partida, foi recebido com um misto de frieza e revolta. Tumultos tomaram as ruas da cidade durante todo o mês seguinte, incluindo a famosa Noite das Garrafadas, ocorrida no fim de semana sguinte à volta do imperador. À luz do dia, bandos armados percorriam as ruas ameaçando as pessoas e quebrando vidraças. Pouco depois das 3 horas da madrugada de Sete de Abril, abandonado e sem uma única sentinela para guarnecer as portas do palácio, D. Pedro entregou a carta de abdicação ao major Miguel de Frias, ajudante do general Francisco de Lima e Silva (pai do futuro Duque de Caxias), que também havia aderido aos revoltosos.

Enquanto o imperador partia para a Europa, a abdicação era comemorada pelos brasileiros com entusiasmo ainda maior do que a proclamação da Independência nove anos antes. O Sete de Abril virou nome de praças e logradouros públicos em todo o país – caso de São Paulo, que reverencia a data em uma de suas ruas mais famosas, situada no centro da cidade. Também virou o Dia do Jornalista, em homenagem ao mártir Líbero Badaró, vítima da índole autoritária do imperador deposto.

Os acontecimentos de 183 anos atrás contém uma lição para o Brasil de hoje. Vivemos um período inédito na nessa história. São quase trinta anos de democracia, sem rupturas. É a primeira vez em que todos os brasileiros são chamados a participar da construção do futuro, processo que deveria incluir um ambiente de liberdade e garantia dos direitos individuais. Apesar disso, poucos foram os momentos da história brasileira tão difíceis e tão violentos para o exercício da atividade jornalística. No Brasil inteiro são cada vez mais frequentes as ameaças ao direito da livre expressão do pensamento e de imprensa. Jornalistas tem sido mortos, presos e agredidos durante o exercício da profissão. Às voltas com as dificuldades naturais do processo democrático, uma parcela da sociedade brasileira tem se dedicado a um inútil e estéril esforço de demonização dos jornalistas e da imprensa. Tudo hoje é “culpa da mídia” – como se, na eventualidade de não existir imprensa e jornalistas, o país pudesse ser menos corrupto, menos violento, menos desigual e injusto.

Neste Sete de Abril, infelizmente celebrado em cenário ainda adverso para a liberdade de imprensa, a história de Líbero Badaró e de D. Pedro I deve ser um sinal de esperança para todos nós brasileiros, jornalistas ou não.

Líbero Badaró: um mártir da liberdade de imprensa no Brasil

Líbero Badaró: um mártir da liberdade de imprensa no Brasil

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26 de março de 2014

1964: golpe ou revolução?

Nesta segunda-feira, 31 de março de 2014, o Brasil lembra – mais lembra do que comemora – os 50 anos do movimento que derrubou o governo do presidente João Goulart e instaurou o regime militar de 64. É um período da história que ainda permanecerá por muito tempo cercado de controvérsia, a começar pela definição do que realmente aconteceu no país. Para os militares, em 64 houve uma “Revolução” no Brasil, cujos principais objetivos seriam restaurar a ordem pública, controlar a indisciplina nos quartéis e impedir a tomada do poder pelos comunistas. Por esse ponto de vista, tratou-se, portanto, mais de uma “contra-revolução” do que de uma “revolução”. Conceito inteiramente diverso pode ser observado atualmente nas redes sociais, na imprensa e nos discursos civis, que em geral definem 1964 como um “golpe militar” que instaurou uma “ditadura” no Brasil.

A História, como se sabe, nem sempre é feita de julgamentos isentos e objetivos de fatos e personagens. A maneira como nós olhamos o passado depende de valores, convicções e necessidades do presente, o que se reflete na forma semântica com que batizamos os eventos históricos. Exemplos disso são as datas 1889, 1930 e 1964. Em 1889, tema do meu último livro, o marechal Deodoro da Fonseca derrubou a monarquia à frente de tropas do Exército que sitiaram os ministros do imperador Pedro II dentro do prédio do Ministério da Guerra, no Rio de Janeiro. O Visconde de Ouro Preto, chefe do Gabinete, foi preso e obrigado a renunciar pela força das armas. Na aparência e no conteúdo foi, portanto, um “golpe militar” contra o Império, mas não é assim que passou para a história. Situação idêntica ocorreu em 1930. Em geral, os livros de História se referem ao movimento que derrubou o governo do presidente Washington Luiz como “Revolução de 30”, embora tenha sido um inegável “golpe militar”, tanto quanto o de 1964. Getúlio Vargas era uma liderança civil, mas chegou ao poder por meio de uma genuína quartelada, como se pode conferir na excelente biografia do personagem escrita pelo jornalista dearense Lira Neto, pela Companhia das Letras.

Por que, então, nos referimos a 1889 como “Proclamação da República”, a 1930 como “Revolução de 30” e a 1964 como “Golpe Militar”?

A rigor, o que houve nas três datas foram autênticos golpes militares, mediante o uso da força para afastar do poder as lideranças civis. Portanto, deveriam merecer definições semelhantes, mas não é o que acontece. Esses eventos poderiam também ser defenidos como “golpe civis” nos quais as forças armadas serviram de instrumentos para a tomada do poder por parte de lideranças civis que, na época, não viam outra solução possível nas vias institucionais existentes – como as urnas. Até 1889, por exemplo, os civis republicanos, embora fizessem muito barulho na imprensa, não conseguiam votos suficientes para mudar o regime mediante maioria no parlamento, o que os jogou no colo das lideranças militares e do movimento golpista liderado por Dedoro da Fonseca.

Acredito que o motivo principal para essas diferenças semânticas esteja na forma como a História – ou seja, as futuras gerações – sancionam ou deixam de sancionar um determinado evento histórico. Em resumo, 1889 passou para a História como “Proclamação” porque a sociedade assim o quis, tanto quanto 1930 entrou para os livros didáticos como “Revolução” e 1964 como “Golpe” e “Ditadura”. De certa forma, essas nomenclaturas refletem também uma certa evolução política da sociedade brasileira. No passado, intervenções violentas nas instituições e no processo político tendiam a ser aceitas de forma mais natural – como ocorreu em 1889 e 1930. Isso já não aconteceu em 1964, ano em que, embora uma parte da sociedade civil tenha aceito e até instrumentalizado as forças armadas para a tomada do poder, uma outra parte, hoje majoritária, não sancionou a intervenção. No momento em que o Brasil se empenha, pela primeira vez, em consolidar a sua jovem democracia, isso é um bom sinal.

Os militares no poder: sem o consenso dos civis

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21 de março de 2014

“1889” ganha edição juvenil ilustrada

Acaba de entrar em pré-venda nos sites das principais livrarias brasileiras a versão juvenil do meu último livro, “1889 – Como um imperador cansado, um marechal vaidoso e um professor injustiçado contribuíram para o fim da Monarquia e a Proclamação da República no Brasil”. O objetivo é tornar ainda mais acessível para os jovens a compreensão de um dos períodos mais controversos da história do país, que inclui a queda da monarquia, em 1889, e também outros episódios importantes do Segundo Reinado e da Primeira República, como a Guerra do Paraguai, o movimento abolicionista, a Revolução Federalista e a Guerra de Canudos.

“1889 – Edição Juvenil Ilustrada” nasceu de uma demanda de pais e professores. Tem como público-alvo adolescentes e estudantes mais jovens. O texto foi adaptado da versão original por Luiz Antonio Aguiar, escritor carioca especializado em linguagem para estudantes adolescentes, e ricamente ilustrado pela artista plástica gaúcha Rita Burgger, de Caxias do Sul. Ambos já haviam sido meus parceiros nas edições juvenis de 1808 e 1822, lançadas no mercado brasileiro respectivamente em 2008 e 2011.

Espero que, ao ler esta versão, esses leitores consigam entender os personagens e acontecimentos da Proclamação da República tanto quanto o leitor da edição adulta, só que de uma forma mais condensada, mais visual e mais lúdica, sem perder a substância do conteúdo.

Ficha técnica

Título:  1889 – Edição juvenil ilustrada

Autor: Laurentino Gomes

Ilustradora: Rita Brugger

Páginas: 240

Formato: 16 x 23 cm

Gênero: História

ISBN: 978-85-250-5631-1

Preço: R$ 36,00

Editora: Globo Livros

A primeira e última capa de 1889 Edição Juvenil

A primeira e última capa de 1889 Edição Juvenil

 

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20 de março de 2014

“O passado é um tempo vivo, atuante sobre o presente”

A minha agenda nas últimas duas semanas foi dedicada ao meu Estado natal, o Paraná, onde participei de quatro maravilhosos bate-papos sobre o livro 1889 e a nossa turbulenta história republicana. O primeiro evento aconteceu em Ponta Grossa, próspera e acolhedora cidade situada na região dos Campos Gerais. Os outros três ocorreram na própria capital, Curitiba.

Em Ponta Grossa tive a oportunidade de conhecer pessoalmente o escritor e crítico literário Miguel Sanches Neto, por cujo trabalho tenho grande admiração. Doutorado pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e professor da Universidade Estadual de Ponta Grossa (da qual é também candidato a reitor este ano), Miguel nasceu em Bela Vista do Paraíso e passou parte da infância e da juventude em Peabiru, cidades próximas de Maringá, onde eu nasci. É autor de vários livros premiados e aclamados pela crítica.

Coube a Miguel Sanches Neto fazer a minha apresentação na abertura do evento de Porta Grossa. Fiquei encantando com suas palavras. Como bom escritor que é, Miguel conseguiu resumir em poucas linhas, de forma precisa e generosa, as peculiaridades e os objetivos de meu trabalho. Por isso, ao final do bate-papo, pedi-lhe uma cópia do texto para que eu pudesse compartilhá-la com os leitores que me acompanham. Aqui está:

“A leitura de 1889 – que completa a trilogia sobre a formação do Estado Brasileiro no século 19 – foca a proclamação da República, depois de o autor já ter publicado os livros 1808, sobre a fuga da corte portuguesa de d. João para o Rio, e 1822, sobre a independência do Brasil.

Escolhendo como título um ano-símbolo, Laurentino faz um minucioso painel dos fatos que culminaram numa tentativa de mudança estrutural do país. A data se revela assim uma construção coletiva, que o autor busca desvendar, numa linguagem que não exclua o leitor comum. Assim, ele dá profundidade ao que aprendemos de maneira chapada nos manuais escolares.

Este é um grande mérito do autor, que entende a escrita como mecanismo de inclusão histórica, permitindo que leitores não especializados tenham acesso a informações transformadoras.

A pesquisa rigorosa das fontes é enriquecida pela linguagem transitável, que pode ser fruída por todos. Uma lição que nós, da Academia, estamos precisando aprender com urgência.

Em seus livros, fruição agradável e informação andam juntas. Além deste binômio, temos ainda o olhar treinado do jornalista, que sabe identificar o que é importante no vasto depósito dos acontecimentos.

Se estas são qualidades atemporais do livro, existem outras ligadas à nossa época.

A leitura de 1889 num ano eleitoral tem um sentido muito forte, porque nos desvela os procedimentos políticos do país, jogando luz sobre os acontecimentos recentes.

O passado, ao contrário do que muitas vezes se pensa, não é um passatempo de aposentado. O passado é um tempo vivo, que continua atuante sobre o presente. Não podemos virar as costas a ele. Temos que desmontá-lo. E é isso que Laurentino faz: ele desmonta a máquina da história, revelando suas engrenagens.

Saímos da leitura de seus livros conhecendo melhor quem somos como povo, sabendo identificar velhas práticas que atravancam a cidadania plena.

Miguel Sanches Neto”

O professor e escritor Miguel Sanches Neto

O professor e escritor Miguel Sanches Neto

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