19 de abril de 2015

A morte de Tiradentes: uma farsa?

 

Tiradentes esquartejado, por Pedro Américo, obra do acervo do Museu Mariano Procópio, de Juiz de Fora)

Tiradentes esquartejado, por Pedro Américo, obra do acervo do Museu Mariano Procópio, de Juiz de Fora

    Comemora-se nesta terça-feira, 21 de abril, o Dia de Tiradentes, herói da Inconfidência Mineira, enforcado no Rio de Janeiro nesta mesma data em 1792. Por coincidência, circula na internet um texto no qual se afirma que a morte de Joaquim José da Silva Xavier (nome completo de Tiradentes) foi uma farsa encenada por líderes da maçonaria da época. Vários leitores tem me enviado mensagens perguntando se esse texto merece crédito. Não merece. Trata-se de mais uma das muitas teorias conspiratórias que circulam pela rede virtual.

Segundo o texto, assinado por Guilhobel Aurélio Camargo, outra pessoa teria sido enforcada no lugar de Tiradentes. Por essa versão, o alferes e inconfidente mineiro foi trocado pelo carpinteiro Isidro Gouveia, um ladrão condenado à morte, que subiu ao patíbulo com o rosto encoberto para que as testemunhas não a reconhecesse. Seria de Isidro o corpo esquartejado após o enforcamento no local chamado Campo da Lampadosa, hoje rebatizado de Praça Tiradentes, no Rio de Janeiro. Com a ajuda da maçonaria, o verdadeiro Tiradentes teria conseguido embarcar às escondidas para a França, onde seria visto um ano mais tarde, bem vivo.

Diz ainda o texto que, durante todo o processo aberto pela coroa portuguesa para apurar a conjuração mineira, Tiradentes admitiu voluntariamente ser o líder do movimento em troca da promessa de que o livrariam da execução na hipótese de uma condenação à forca. Em 1792, confirmada a sentença, seus amigos da maçonaria trataram de cumprir o trato. O carpinteiro Isidro Gouveia, condenado por roubo em 1790, teria assumido a identidade de Tiradentes em troca de ajuda financeira para sua família, oferecida a ele também pela maçonaria.

A estória da farsa envolvendo a morte de Tiradentes não é nova. Em 1969, o historiador carioca Marcos Correa viu em Lisboa cópias de uma lista de presença na galeria da Assembleia Nacional francesa de 1793. Correa fazia uma pesquisa sobre José Bonifácio de Andrada e Silva, testemunha dos desdobramentos da Revolução Francesa em Paris. Na lista de presença encontrou o nome de Bonifácio e, próximo à assinatura dele, o nome de um certo Antônio Xavier da Silva, cuja letra seria muito semelhante à de Tiradentes. Só isso bastou para se espalhar a fantástica história da conspiração organizada no Rio de Janeiro nos dias que antecederam ao enforcamento do inconfidente.

O texto da internet termina dizendo que, segundo “relatos” (não especificados), Tiradentes teria voltado ao Brasil em 1806, quatorze anos após a suposta fuga para a Europa. Incógnito, teria aberto uma botica na casa da namorada Perpétua Mineira, situada na Rua dos Latoeiros (hoje Gonçalves Dias), no Rio de Janeiro, onde morreria em 1818.

Quais as chances dessa estória ser verdadeira? Por enquanto, nenhuma. Pelo menos, até que surjam documentos que a comprovem.

O melhor estudo sobre o tema é “A devassa da devassa: a Inconfidência Mineira. Brasil e Portugal (1750-1808)”, do historiador britânico Kenneth Mawell (Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2000). Publicado originalmente em 1977 na Inglaterra, país de origem do autor, o livro é um inventário minucioso do processo que levou a Conjuração Mineira e à execução de Tiradentes. Pesquisador meticuloso, Mawell usou com eixo de sua investigação os Autos da Inconfidência, ou seja, o inquérito aberto pela coroa portuguesa para investigar a conspiração em em Vila Rica (atual Ouro Preto). Em momento algum, Mawell deparou-se com qualquer indício de que a morte de Tiradentes tenha sido uma farsa.

História, como se sabe, é feita de documentos, não de suposições. A documentação histórica é muito ampla. Inclui, entre outras fontes, textos oficiais, correspondências, diários pessoais, relatos de viajantes e testemunhas, inventários pós-morte, artigos de jornais e revistas, objetos e obras de arte. É com base nesse tipo de fonte que os historiadores procuram reconstruir os personagens e os acontecimentos do passado.

O problema é que boa parte das pessoas prefere acreditar mais em teorias e suposições do que em documentos e estudos confiáveis. É o que explica o sucesso das obras do americano Dan Brown e outros escritores que usam as teorias conspiratórias como roteiro de suas obras. No caso de Tiradentes, não há uma única fonte confiável que desminta o destino que dele se conhece. Por enquanto…

 

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14 de abril de 2015

A origem das cores da bandeira do Brasil

 

Bandeira do Reino Unido, criado por Dom João VI em 1815, já como azul e o amarelo

Bandeira do Reino Unido, criado por Dom João em 1815, já com as cores azul e amarela

Pelas redes sociais, os leitores me fazem perguntas curiosas. Um deles me questionou pelo Twitter esta semana:

“Certa vez li na faculdade um artigo segundo o qual o azul da bandeira brasileira deriva da cor da embalagem de uma manteiga chamada Cometa. É verdade?”

Obviamente, não. Na internet, é possível consultar o Diário Oficial da União de 24 de novembro de 1901, página 10, no qual um empresário de nome J. de Lima pedia o registro da marca “Manteiga Cometa”. A embalagem, porém, tinha fundo vermelho com letras amarelas e o desenho estilizado de um cometa. Nessa época, já fazia dois anos que o novo estandarte republicano brasileiro havia sido criado pelo decreto de número 4, de Dezenove de Novembro de 1889 – data hoje celebrada nas escolas como o Dia da Bandeira.

Os primeiro símbolos nacionais brasileiros foram criados por decreto do futuro Dom Pedro I no dia 18 de setembro de 1822. Em verde e amarelo, o escudo de armas e o distintivo, também chamado de “tope nacional”, combinavam elementos da heráldica portuguesa, como a esfera armilar (representação da abóboda celeste e do império) e a cruz da Ordem de Cristo, com motivos tropicais: um ramo de café e outro de tabaco ao redor de um campo verde. Era uma simbologia de duplo sentido.

O verde representava as florestas, mas também era a cor da tradição no escudo da real família de Bragança. O amarelo remetia simultaneamente ao ouro do Brasil e à cor da casa de Lorena, usada na Áustria pelos Habsburgo da Imperatriz Leopoldina. O azul, junto com o amarelo,  já aparecia na bandeira do Reino Unido de Brasil, Portugal e Algarves, criado por Dom João em 1815. A bandeira do Império, de 1822, foi  idealizada pelo pintor francês Jean Baptiste Debret. Ttinha o fundo verde sobreposto por um grande losango amarelo, no centro do qual apareciam o brasão e a coroa imperiais amoldurados por ramos de café e tabaco.

Derrubada a monarquia, a nova bandeira republicana, como ainda não houvesse uma bandeira que representasse as aspirações do novo regime, em Quinze de Novembro de 1889 os republicanos usaram em suas manifestações uma imitação da bandeira dos Estados Unidos com cores diferentes. Um estandarte tambem de estilo americano foi hasteado a bordo do navio Alagoas, que levou a família imperial para o exílio dois dias mais tarde. Esses dois símbolos refletiam o fascínio que a jovem e dinâmica república da América do Norte exercia sobre os brasileiros na época. Isso se podia comprovar também no próprio nome do país adotado pelo governo provisório: República Federativa dos Estados Unidos do Brasil.

Essas referências aos Estados Unidos desagradavam, no entanto, parte dos militares mais nacionalistas e, em especial, os adeptos do Apostolado Positivista, cujo líder, Teixeira Mendes, dizia tratar-se de “uma imitação servil” dos símbolos de outra nação. Os positivistas defendiam que o Brasil republicano deveria adotar sua própria bandeira e encomendaram um modelo ao pintor Décio Villares, imediatamente aceito pelo marechal Deodoro por sugestão de Benjamin Constant. Nele, mantinham-se o desenho e as cores originais da bandeira do império, substituindo-se apenas a coroa por um círculo azul com as estrelas que representariam o céu do Rio de Janeiro na manhã de 15 de novembro de 1889. “As cores da nossa antiga bandeira recordam as lutas e as vitórias gloriosas do exército e da armada na defesa da pátria”, justificava o decreto do governo provisório. “Essas cores, independentemente da forma de governo, simbolizam a perpetuidade e integridade da pátria entre as outras nações.”

A nova bandeira provocou grande controvérsia por duas razões. A primeira foi a posição das estrelas. Um especialista consultado em Paris pelo correspondente do jornal Gazeta de Notícias explicou que a dimensão do Cruzeiro do Sul estava exagerada e o eixo da constelação em relação ao polo sul, invertido. Alguns críticos diziam, de forma sarcástica, que, tendo derrubado a monarquia, o governo provisório queria levar a revolução também aos céus e mudar a astronomia. O erro foi, de fato, comprovado mais tarde, resultando em nova versão da bandeira, utilizada até hoje.

Uma segunda polêmica envolveu a divisa “Ordem e Progresso”, colocada no centro de esfera azul. O bispo do Rio de Janeiro se recusou a abençoar a nova bandeira alegando que ela continha apologia de uma seita divergente da religião católica. De fato, a expressão resumia a doutrina do francês August Comte e adotada como lema pelos fiéis da Igreja Positivista: “O amor por princípio, a ordem por base e o progresso por fim”. Apesar da forte oposição, a divisa foi mantida na bandeira graças ao apoio de Benjamin Constant, um admirador de Comte. Do lema original, no entanto, eliminou-se o amor preferindo-se reforçar a ideia de ordem e progresso, conceitos que os republicanos julgavam mais urgentes naquela nova fase da vida nacional.

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7 de abril de 2015

Os motivos da abdicação de Dom Pedro I

 

   Há 184 anos, na madrugada deste Sete de Abril, chegava ao fim, de forma melancólica, o primeiro governo constitucional do Brasil independente. A abdicação de Dom Pedro I, em 1831, selou o destino do breve e tumultuado Primeiro Reinado, que se iniciara com a coroação do nosso primeiro imperador, em dezembro de 1822, algumas semanas após o Grito do Ipiranga.

 

   Quatro razões contribuíram de forma decisiva para a abdicação de Dom Pedro. As duas primeiras foram os escândalos da vida privada e sua notória oscilação entre os interesses brasileiros e portugueses. O envolvimento com a Marquesa de Santos e a morte da popular imperatriz Leopoldina, chorada até pelos escravos e pessoas mais humildes, causaram revolta em um país ainda muito católico e conservador, cuja população considerava esse tipo de comportamento intolerável. As condições do tratado de reconhecimento da Independência, pelas quais concordara em indenizar os portugueses, eram apontadas pelos brasileiros como uma prova definitiva de que o soberano inclinava-se mais a agradar seus compatriotas de nascimento do que os de sua pátria de adoção. Tudo isso fez com que Dom Pedro perdesse rapidamente a aura de herói da Independência conquistada em 1822.

 

   Um terceiro motivo para a abdicação foi a longa e desgastante guerra com a Argentina pelo controle da província Cisplatina, o atual Uruguai, também chamada de Banda Oriental pela sua localização geográfica, a leste do Rio da Prata.O império acabou derrotado de forma humilhante em 1827, quando as forças argentinas e uruguaias massacraram os brasileiros na localidade de Ituzaingó. A paz viria em 27 de agosto de 1828 com a assinatura do tratado intermediado pela Inglaterra que deu a independência ao Uruguai. O novo país nascia para servir de tampão, ou para-choque, entre os interesses do Brasil e da Argentina na estratégica foz do Rio da Prata, região que Portugal e Espanha haviam disputado de forma encaniçada durante os três séculos da colonização. O imperador foi identificado como o grande culpado pela derrota.

 

    Todas essas dificuldades convergiram na quarta e definitiva razão para a impopularidade do imperador: a permanente instabilidade política do Primeiro Reinado, resultante, em grande parte, do gênio impulsivo e autoritário do soberano. A dissolução da constituinte, em 1823, a censura à imprensa, a perseguição aos jornalistas, ex-companheiros da maçonaria e adversários políticos em geral, o cruel tratamento aos mártires da Confederação do Equador e outras decisões minaram rapidamente a já precária rede de apoio que o imperador conseguira tecer no início de seu reinado.Em nove anos no trono brasileiro, Dom Pedro mudou dez vezes o ministério – em média, mais de uma por ano. Ao todo, teve 45 ministros nesse período, um terço dos quais eram portugueses de nascimento. Sua autoridade foi constantemente desafiada por uma oposição cada vez mais forte e bem organizada, que usava a imprensa para propagar as suas ideias.

 

   No dia 7 de abril de 1831, faltava pouco para o sol nascer quando o imperador deixou o palácio em roupas civis – um fraque marrom e chapéu redondo. Na ausência da guarda de honra, dois diplomatas, representantes da Inglaterra e da França, o acompanharam até a fragata Warspites, onde permaneceu nos seis dias seguintes, antes de partir para a Europa, onde o aguardava uma épica guerra contra o irmão, Dom Miguel, pelo trono de Portugal.

 

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5 de abril de 2015

O real tamanho da escravidão no Brasil

   O jornal ‘O Globo’ publica neste domingo, 5 de abril, uma reportagem importantíssima sobre um assunto que ainda merece muitos estudos: a escravidão brasileira. Segundo nova pesquisa baseada em um banco de dados na Universidade de Emory, em Atlanta, nos Estados Unidos (com a participação do brasileiro Manolo Florentino, um dos nossos grandes especialistas no tema), só a cidade do Rio de Janeiro recebeu 2 milhões de cativos africanos, o dobro do número que se estimava até agora.

   No total, o Brasil importou da África ao longo de três séculos 4,8 milhões de escravos, quase a metade do total de cativos vindos para o continente americano (estimado em cerca de 11 milhões). O Valongo, na zona portuária do Rio de Janeiro, foi o maior entreposto negreiro do Novo Mundo, como explico no capítulo ‘A Escravidão’ do meu livro ’1808′. Outra cifra que chama a atenção, divulgada pela primeira vez, é o de total de vidas perdidas nos deslocamentos entre continentes — pelo levantamento da Universidade de Emory, cerca de 300 mil escravos morreram a caminho do Rio de Janeiro.

   Diante desses números, faz cada vez mais sentido a frase do abolicionista pernambucano Joaquim Nabuco: “A escravidão não consentiu que nos organizássemos e sem povo as instituições não tem apoio, a sociedade não tem alicerce”.

   Leia a reportagem completo de ‘Globo’neste link: http://m.oglobo.globo.com/rio/pesquisa-americana-indica-que-rio-recebeu-2-milhoes-de-escravos-africanos-15784551

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