24 de março de 2015

O valor do silêncio em Luis Fernando Veríssimo e Henri Nouwen

No avião, a caminho de Curitiba, leio uma entrevista do escritor gaúcho Luis Fernando Veríssimo. Ele fala de sua obra, de sua rotina de trabalho e de seu jeito de ser – tímido, calado e introspectivo. O repórter lhe pergunta por que fala tão pouco. “Não sou eu quem fala pouco”, responde Veríssimo. “São as pessoas que falam muito”.

De fato, vivemos em um mundo tagarela e barulhento.

Por coincidência, acabo de ler um livro encantador que trata do mesmo tema, cuja leitura eu recomendo. Chama-se “O caminho do coração”, do teólogo holandês Henri Nouwen (Editora Vozes, 2014, 93 páginas). Escreve Nouwen:

“Ao longo das últimas décadas, temos sido inundados por uma torrente de palavras. Onde quer que vamos, estaremos cercados por elas: as suavemente sussuradas, ruidosamente proclamadas ou colericamente gritadas; as escritas, declamadas ou cantadas; em registros, nos livros, nos muros ou no céu; em muitos sons, muitas cores ou muitas formas; para serem ouvidas, lidas, vistas ou vislumbradas; as que piscam, movem-se lentamente, dançam, pulam ou se contorcem. Palavras, palavras e mais palavras! Elas formam o chão, as paredes e o teto da nossa existências. Nem sempre foi assim. Houve um tempo, não muito distante, sem rádio e televisões, sinais de “dê a preferência”, adesivos nos parachoques e os onipresentes anúncios indicando aumento de preços ou ofertas especiais. Houve um tempo em que não existiam os anúncios que agora cobrem cidades inteiras com palavras. Recentemente, eu estava dirigindo por Los Angeles e, subitamente, tive a estranha sensação de estar guiando em meio a um vasto dicionário. Para onde eu olhasse, havia palavras tentando tirar meus olhos da rua. Elas diziam: ‘Use-me, leve-me, compre-me, beba-me, cheire-me, toque-me, beije-me, durma comigo’. Num mundo assim, quem consegue manter o respeito pelas palavras? (…) Elas, incluindo as minhas, perderam o seu poder criativo. Sua multiplicação ilimitada nos fez perder a confiança nelas. (…) O resultado disso é que a principal função da palavra, que é a comunicação, não é mais cumprida. Ela já não comunica, não promove a comunhão, não cria o senso comunitário e, assim, já não oferece um terreno de confiança em que as pessoas possam conhecer umas às outras e construir a sociedade”

Qual a solução? O silêncio propõe Nouwen. “O silêncio é a morada da palavra, ele fortifica e fecunda o mundo”, ensina.

Depois de ler esse texto, passei a entender melhor de onde nascem os livros e as palavras de Luis Fernando Veríssimo. Como seria bom se todos nós aprendêssemos a beber nessa fonte!

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13 de março de 2015

O Brasil de Dom João: honesto ou corrupto?

Dias atrás, publiquei aqui no blog um post a respeito do jogo de empurra-empurra que se estabeleceu no curso das investigações da chamada Operação Lava-Jato, que investiga casos de corrupção na Petrobrás. Quase todos os denunciados insistem que as falcatruas são antigas e que deveriam ter sido investigadas antes. Por isso, arrisquei a seguinte sugestão: já que a ideia é investigar o passado, que tal apurar os escândalos de corrupção durante o período de permanência da corte de Dom João VI no Rio de Janeiro?

O post, como seria de esperar diante do clima político que o país vive hoje, teve repercussão enorme. Mais de 300 mil pessoas viram ou comentaram o texto. Acabou reproduzido no site da revista VEJA pelo jornalista Ricardo Setti, meu amigo pessoal, por cujo trabalho tenho grande admiração. Dias atrás, Setti me enviou um email dizendo que recebera um pedido de resposta por parte da advogada Maria Sylvia Nogueira de Toledo.

Autora do blog www.targini.com.br, Maria Sylvia garante que Francisco Bento Maria Targini, o Barão de São Lourenço, que citei como corrupto na corte de Dom João, era um homem honesto, íntegro, grande intelectual e bom servidor da coroa portuguesa. Segundo ela, não existem provas de que tenha praticado qualquer falcatrua à frente do Erário Real e que as denúncias foram produto das divergências políticas da época. Tardini, afirma Maria Sylvia, foi proibido de fato de desembarcar em Lisboa em 1821, não porque era corrupto, mas por ser ferrenho adversários dos liberais nas Cortes Constituintes.

No meu entender, o caso Barão de São Lourenço ilustra bem a proposta que fiz em meu post: o Brasil precisa investigar a fundo as denúncias de corrupção para que não restem dúvidas ou sombras a respeito de personagens e acontencimentos no passado. Figuras públicas devem estar sob permanente escrutíneo da imprensa, do parlamento, da Justiça e de todas as instituições responsáveis pelo controle no uso dos recursos da nação. A História é uma ferramenta de construção de identidade. Só olhando o passado poderemos entender quem somos hoje. Por isso, o passado não pode ter zonas cizentas. É como se fosse um espelho. Como poderemos reconhecer nossa imagem se o espelho contiver manchas que nos impedem de ver quem realmente somos?

Meu texto, vale recordar, foi escrito a propósito de uma curiosa declaração da presidente Dilma Roussef. Ao comentar as investigações da Operação Lava-Jato, a presidente afirmou que os roubos na Petrobrás provavelmente teriam sido menores no governo do PT caso lá atrás, na década de 90, o então presidente Fernando Henrique Cardoso tivesse tomado a iniciativa de apurar os desvios na estatal. Fiquei perplexo ao ler essa afirmação. No meu entender, a presidente estava sugerindo que não se deve revirar em lama nova quando já existe muito lodo depositado no fundo deste vasto e escuro pântano chamado Brasil. Para quê dar tanta importância àsdenúncias da Lava-Jato se o Brasil é, reconhecidamente, um país corrupto, com tantos casos impunes no passado?

Impressionado com os argumentos da presidente, arrisquei a seguinte sugestão de que se investigassem os casos de corrupção na corte de Dom João. Lá se vão mais de duzentos anos e, até agora, ninguém foi punido. Evidências é que não faltam. Na opinião do historiador Manuel de Oliveira Lima, os treze anos de pernamanência da corte portuguesa no Rio de Janeiro foram um dos períodos de maior corrupção na história brasileira  – com a ressalva de que Oliveira Lima morreu há quase cem anos e não teve a oportunidade avaliar o que aconteceu depois disso.

Em seguida, citei uma série de suspeitas e denúncias relacionadas à ladroeira no Brasil de Dom João VI. Uma herança dessa época, afiirmei, é a prática da “caixinha” nas concorrências e pagamentos dos serviços públicos. Oliveira Lima, citando os relatos do inglês Luccock, diz que cobrava-se uma comissão de 17% sobre todos os pagamentos ou saques no tesouro público. Era uma forma de extorsão velada: se o interessado não comparecesse com os 17%, os processos simplesmente paravam de andar.

Dois personagens se destacavam como alvos principais dessas denúncias: os portugueses Joaquim José de Azevedo, responsável pela área de compras e os estoques da casa real, e Francisco Bento Maria Targini, chefe do erário real. Pelos seus serviços, foram regiamente recompensados. O primeiro tornou-se o Visconde do Rio Seco. O segundo, Visconde de São Lourenço.Ambos se enriqueceram tão rapidamente e tiveram sua imagem de tal forma ligada à corrupção que, em 1821, no retorno de Dom João à metrópole, foram impedidos de desembarcar em Lisboa pela Corte Constituintes Portuguesas.

Em terminava meu post dizendo que, diante de tanntos descalabros, o Brasil deveria deixar para lá os corruptos da Operação Lava Jato e correr atrás dos larápios do Brasil Joanino. Cadeia neles!

Eu agradeço a mensagem e as importantes contribuições da advogada Maria Sylvia Nogueira de Toledo. Meu texto continha, de fato, pelo menos uma incorreção: ao contrário do que afirmei, o Visconde de São Lourenço não retornou ao Brasil depois de ser impedido de desembarcar em Portugal. Em vez disso, exilou-se em Paris, até o fim de seus dias. Difícil, no entanto, aceitar sem restrições os argumentos da advogada de que Targini fosse um cidadão honesto e incorruptível. Não é o que dizem os historiadores e cronistas da corte de Dom João no Brasil. Se as denúncias não foram adequadamente investigadas na época, quem sou eu para lhe passar um atestado de bom comportamento hoje, duzentos anos depois?

Os argumentos utilizados na defesa do Barão de São Lourenço, por sinal, são muito parecidos com os envolvidos nas denúncias da operação Lava-Jato. Dilma, Lula, Renan Calheiros, Eduardo Cunha, a direção do PT, os executivos das empreiteiras envolvidas nos desvios da Petrobrás – todos, sem exceção, alegam que jamais roubaram um único centavo dos cofres públicos e que tudo não passa de intriga política da oposião – ou da “burguesia golpista”, para usar uma expressão peculiar no vocabulário do MST e outros segmentos da esquerda.

Por essa razão, insisto: é preciso investigar a fundo as falcatruas e mazelas brasileiras. Caso contrário, daqui a duzentos anos, ainda estaremos discutindo não apenas a reputação do Barão de São Lourenço, mas também a dos denunciados da operação Lava-Jato. Afinal, são larápios responsáveis pelo mais escandaloso desfalque de recursos públicos da história brasileira, como apontam as investigações, ou gente honesta e bem intencionada, que sempre agiu pelo bem do Brasil, como alegam?

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2 de março de 2015

Os 140 anos da Rua Primeiro de Março, a mais famosa do Rio de Janeiro

   Shows, inaugurações de obra, jogos de futebol, queima de fogos de artifícios, missas e outras celebrações marcaram os 450 anos de fundação do Rio de Janeiro neste último domingo. Junto com a cidade, porém, também faz aniversário esta semana em números redondos a sua mais famosa rua. São 140 anos da Rua Primeiro de Março.

   Situada no centro da cidade, a Rua Primeira de Março ganhou esse nome em 1875 em comemoração à vitória brasileira na Batalha de Aquidaban, que marcou o fim da longa e sangrenta Guerra do Paraguai. Até então chamava-se Rua Direita, nome que, por sua vez, indicava desde os tempos coloniais um caminho relativamente reto ligando o antigo Morro do Castelo ao Mosteiro de São Bento, dois ícones da geografia da cidade.

   Praticamente todos os grandes eventos históricos do Rio de Janeiro – e do próprio Brasil – tiveram como cenário a atual Rua Primeira de Março, ou sua antiga denominação. Na cadeia velha, situada na margem direita dessa via, onde hoje funciona o Palácio Tiradentes, ficou preso  o alferes Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, herói da Inconfidência Mineira, antes de ser enforcado em 21 de abril de 1792. Alguns metros mais adiante, no Paço Real (depois Paço Imperial e hoje Paço da Cidade), instalou-se em 1808 o príncipe regente Dom João e sua familia, recém-chegados de Portugal após a invasão da metrópole pelas tropas do imperador francês Napoleão Bonaparte.

   Em 1808, o Rio de Janeiro tinha apenas 75 logradouros públi­cos, sendo 46 ruas, quatro travessas, seis becos e dezenove campos ou largos.Os nomes das ruas ajudam a explicar sua atividade: Praia do Sapateiro (atual Praia do Flamengo), Rua dos Ferradores (atual Alfândega), Rua dos Pescadores (Visconde de inhaúma) e Rua dos Latoeiros (Gonçalves Dias). A via principal era a Rua Direita. Ali ficavam a casa do governador, a alfândega e, mais tarde, o Convento do Carmo, a Casa do moeda e o próprio Paço Real.

   Na Capela Real, situada perto do antigo Paço Imperial do lado oposto da Rua Primeiro de Março, casaram-se em 1817 os príncipes Pedro e Leopoldina, futuros imperadores do Brasil. No mesmo local ocorreria cinco anos mais tarde a coroação de Dom Pedro I, cerimônia que se repetiria em 1840, quando seu filho, Dom Pedro II, ainda adolescente, ascendeu ao trono para governar o país por quase meio século. Tambem pela Rua Primeiro de Março desfilaria o marechal Deodoro da Fonseca com suas tropas depois de derrubar a monarquia brasileira na manhã de Quinze de Novembro de 1889.

   A primeira sorveteria brasileira foi inaugurada, em 1835, na então Rua Direita. Também foi essa a primeira rua em todo o país dotada de numeração das casas, proposta do arquiteto francês Pedro Alexandre Covroé. Em 1847, foi cenário de outra grande novidade: a adoção do sistema de mão e contra-mão, destinado a organizar o caótico trânsito de cavalos, carroças e carruagens.

   Fica aqui, portanto, um brinde à Rua Primeiro de Março, importantíssimo marco histórico brasileiro, com direito a assoprar também a sua velinha de aniversário na semana dos 450 anos da cidade do Rio de Janeiro!

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25 de fevereiro de 2015

Eu e meu sósia, Carlos Alberto Sardenberg

Sardenberg e eu: separados ao nascer?

Sardenberg e eu: separados ao nascer?

Lauren Sardenberg

Algum tempo atrás, ao desembarcar de um vôo de Nova York no Aeroporto de Guarulhos, uma senhora simpática, bem vestida e educada aproximou-se de mim e, discretamente, cochichou ao meu ouvido:

– Gosto muito dos seus comentários na CBN.

Pego de surpresa depois de uma noite mal dormida, demorei alguns segundos até me dar conta de que a ilustre passageira provavelmente se referia à famosa rede noticiosa de rádio, ouvida por milhões e milhões de brasileiros todos os dias. Mas por que “os seus comentários”? Já fui entrevistado diversas vezes pela CBN, mas nunca tive a honra de ser comentarista da rede.

Tratava-se, na verdade, de um mal-entendido que tem me acompanhado com certa frequência nos últimos anos.

Meses antes desse vôo de Nova York, eu estava tomando café em outro aeroporto brasileiro, o de Curitiba, quando percebi que, do outro lado do balcão, um jovem me olhava com insistência fora do comum. Depois de dois ou três minutos, ele finalmente tomou coragem, apontou o dedo para mim e disparou em voz alta:

– Carlos Alberto Sardenberg?

– Não, Laurentino Gomes, respondi, para óbvia decepção do meu interlocutor.

Muitas pessoas me confundem com o jornalista, apresentador e comentarista da CBN Carlos Alberto Sardenberg. O motivo? Somos sósias quase idênticos na aparência, como se fôssemos irmãos gêmeos separados ao nascer. Basta comparar nossas fotografias.

Intrigado com esse fenômeno, fui ao Google em busca de explicações. Segundo um artigo que li na internet, todos nós temos sósias. Um só não, mas sete. A probabilidade estatística de haver um ser humano igual a você que no momento me lê nest post é de uma para um bilhão. O que significa que, em algum lugar deste vasto, belo e tão maltratado planeta, existem mais outras sete pessoas com aparência semelhante à sua.

Já ouvi falar de pessoas que são sósias de Ana Maria Braga, Elvis Presley, Adolf Hitler, Rubinho Barrichelo, Felipão, José Sarney, Tiririca, Fernando Henrique Cardoso, Lula, Dilma Roussef. Dependendo dos sonhos e das convicções de cada um, isso pode ser uma benção ou uma maldição.

Comigo, felizmente, Deus foi generoso e me fez sósia de um grande jornalista, um dos mais respeitados e admirados da minha geração.

Dias atrás, reencontrei Carlos Alberto Sardenberg em um restaurante de São Paulo.Como nos conhecemos há muitos anos, levantei-me para cumprimentá-lo. Ele veio em minha direção com o largo sorriso de sempre e, antes que nos abraçássemos, avisou:

– Você não faz ideia de quantos livros já autografei no seu nome: toda vez que vou a uma livraria, alguém acha que eu sou você!

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