Em Portugal, em busca de Dom João

Revisito a foz do Rio Tejo enquanto caminho pelo Passeio Marítimo de Oeiras na manhã ensolarada, de céu azul e temperatura amena, deste domingo de outono em Lisboa. Este é o cenário de alguns dos acontecimentos mais importantes da História da Humanidade. Daqui zarpou a frota de Bartolomeu Dias, em agosto de 1487, rumo ao Cabo da Tormentas, depois rebatizado como Cabo da Boa Esperança, na extremidade sul do continente africano. Daqui partiu, no dia 8 de julho de 1497, a esquadra de Vasco da Gama para abrir a rota das Indias aos portugueses. Desse mesmo ponto levantaram âncoras, no dia 9 de março de 1500, as treze embarcações capitaneadas por Pedro Álvares Cabral em direção a Porto Seguro na Bahia. E, finalmente, daqui também zarparam,  no dia 29 de novembro de 1807, os 58 navios da comitiva do principe regente Dom João, a caminho de Salvador e do Rio de Janeiro, horas antes da chegada das tropas invasoras do imperador francês Napoleão Bonaparte.

Retorno, uma vez mais, à bela e charmosa Lisboa para ciceronear, a partir desta terça-feira, um grupo de cem estudantes e professores das redes públicas municipais de ensino de sete cidades brasileiras – Belo Jardim (PE), Salvador e Mata de João (BA), Rio de Janeiro (RJ), São Paulo, Novo Horizonte e Santo André (SP). A viagem a Portugal é o desfecho de um projeto educacional chamado “Era uma vez… Brasil”. Ao longo de todo o ano de 2016, milhares de estudantes e professores dessas seis cidades estudaram a história do corte de Dom João tendo como referência o livro ’1808′, de minha autoria. Os cem participantes mais bem avaliados foram escolhidos para viajar a Lisboa, onde durante dez dias, vão conhecer em minha companhia os lugares frequentados pela corte antes e depois da fuga para o Brasil. No dia 16, se tudo correr bem (ainda falta confirmar na agenda), seremos recebidos pelo presidente de Portugal, professor Marcelo Rebelo de Sousa. Emocionante!

 

 

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A conta dos sonhos ficará no Brasil

(Reproduzo abaixo texto do jornalista Elio Gaspari, que trata do tema do  meu post anterior: a “síndrome do vira-latas” neste nosso Brasil olímpico)

Daqui até o fim dos jogos, centenas de jovens subirão nos pódios, baixarão a cabeça e receberão as medalhas de ouro da Olimpíada do Rio. Serão momentos de sonho, felicidade e alegria. Da alegria dos jovens que sorriam para o mundo durante o desfile dos atletas na festa da abertura. Nada reduzirá a beleza dessas cenas. Para os brasileiros, ficarão os momentos de sonho e a conta. Alguém ainda fará o cálculo da fatura dos custos diretos e indiretos transferidos à Viúva. Chutando para cima, poderá chegar a R$ 500 milhões.

O Maracanã, joia da privataria do governo do Rio e da Odebrecht, tornou-se um magnífico elefante branco, incomparável em noites de festa. A manutenção das instalações olímpicas custará R$ 59 milhões anuais num Estado cuja rede de saúde pública entrou em colapso. A máquina de marquetagem que prometeu Olimpíada sem dinheiro público voava nas asas dos jatinhos de Eike Batista, o homem mais rico do Brasil, candidato ao pódio mundial. Era o tempo em que os governantes torravam o dinheiro achando que o pré-sal cobriria qualquer projeto.

Nos dias em que os problemas da Vila Olímpica dominaram o noticiário, foi frequente o argumento de que os críticos da festa carregavam o eterno “complexo de vira-lata”.

Criação de Nelson Rodrigues, ele refletia “a inferioridade em que o brasileiro se coloca, voluntariamente, em face do resto do mundo”. Bola dentro, mas às vezes a questão é mais complicada. Há cães de raça, mas há também adoráveis vira-latas.

A sorte, essa trapaceira, fez com que o repórter José Maria Tomazela mostrasse uma nova dimensão da problemática canina. Ele expôs a ação de uma quadrilha de Sorocaba (SP) que mutilava e pintava filhotes de vira-latas, transformando-os em chihuahuas e pinschers. Vendiam chihuahuas por R$ 300.

Viu-se assim outro ângulo da questão: há gente que vende chihuahuas e entrega vira-latas maquiados a pessoas que resolveram acreditar neles.

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O Brasil das Olimpíadas, entre o sonho e a vergonha

(Escrevi eate artigo para a edição desta semana da revista portuguesa Visão)

 

Um Brasil perplexo, em estado de choque, mal controla a ansiedade enquanto os ponteiros do relógio nos levam em direção à fatídica data de abertura dos jogos olímpicos de 2016, no Rio de Janeiro. Os jornais estão repletos de notícias ruins a nosso respeito. “A catástrofe olímpica brasileira”, criticou, dias atrás, o venerável The New York Times. “As Olimpíadas da sujeira”, castigou o concorrente The Washington Post. “Que vergonha o Brasil fazer a Olimpíada!”, resumiu o site noticioso WorldCrunch.com. “Um país pobre e com tantos problemas não deveria se arriscar a promover um evento de tal grandeza”, acrescentou.
Nossa angústia deriva da certeza de que, ao longo das próximas quatro semanas, o mundo estará a nos observar. O que temos a mostrar aos “outros”, os “de lá de fora”? Que somos um povo incompetente, inepto para realizar um evento sabido e planeado há quase uma década? Qual é o tamanho da vergonha que estamos dispostos a suportar diante dessas bilhões de pessoas que estarão de olhos grudados na televisão a acompanhar os jogos? Sairemos ilesos dessa experiência como sociedade nacional? Poderemos encarar nosso futuro com alguma dignidade depois de passar por tamanho escrutínio? Seríamos, de fato, tão ruins quanto dizem as notícias?
Todas essas perguntas estão no cerne da crise de identidade que, às vésperas dos jogos, parece nos assolar com ímpeto antes nunca visto. Os problemas, obviamente, são muitos e bem conhecidos. As tais obras grandiosas prometidas para os jogos não ficaram prontas a tempo, ou estão mal acabadas. Uma delas, a ciclovia na orla de São Conrado, desabou semanas atrás sob o efeito de uma ressaca, matando duas pessoas. A sujeira na Baia da Guanabara é devastadora ao ponto de inviabilizar as provas de remo e outros esportes náuticos para ali previstos. As estatísticas apontam o Rio de Janeiro entre as cidades mais violentas do mundo, com tiroteios diários e tão frequentes quanto na guerra da Síria. Falido e sem dinheiro para pagar seus funcionários, o governo do Estado acaba de decretar estado de emergência nas finanças públicas.
Nelson Rodrigues, um de nossos mais célebres escritores e um arguto observador da índole brasileira, apontou mais de uma vez o que seria, no seu entender, uma certa esquizofrenia no nosso caráter nacional. Temos um grave problema de autoestima. O brasileiro, segundo ele, oscila com grande facilidade entre a euforia e o mais profundo estado de depressão. No primeiro estágio, geralmente nos vemos como um gigante adormecido, prestes a acordar para surpreender o mundo com as nossas muitas e nunca reconhecidas virtudes. Orgulhamo-nos de ser um povo alegre, pacífico, honesto, trabalhador e milagreiro, capaz de tudo. “Deus é brasileiro”, reza um conhecido ditado. “Sou brasileiro, com muito orgulho, com muito amooor!”, entoava a torcida verde-amarela nos estádios da Copa do Mundo de 2014.
Quando estes mitos se recusam a ficar de pé, as ilusões perdidas rapidamente dão lugar ao segundo estágio, que Nelson Rodrigues chamou de “síndrome do vira-latas”, um estado de percepção negativa que o psiquiatra Francisco Daudt também definiu como de “coitadismo”, aquele em que passamos a nos considerar o pior, o mais atrasado, ineficiente e ignorante povo do mundo. Nesse processo de vitimização nacional viajamos com grande velocidade entre o céu e o inferno, entre o ufanismo delirante e o fundo do poço em que contemplamos as nossas sombras tenebrosas. É o que se pode observar nestes últimos dias.
Há dois Brasis, distintos e irreconhecíveis para os próprios brasileiros, no caminho das Olimpíadas de 2016. O primeiro é o que se candidatou a sediar os jogos, em 2009, portanto a meros sete anos atrás. Na época era um país próspero, uma das economias mais dinâmicas do mundo. Com taxa de crescimento de 10% ao ano, liderava o bloco das nações emergentes conhecido pela sigla BRICS e integrado também por Rússia, Índia, China e África do Sul. Os bons resultados econômicos permitiam antever a redução da pobreza por meio de programas governamentais que davam ao então presidente Luís Inácio Lula da Silva altos índices de popularidade.
O segundo Brasil – o que, de fato, a partir desta semana se apresenta ao mundo para os jogos olímpicos – é bem diferente do primeiro. A economia vai de mal a pior. Previsões do Banco Mundial apontam para uma redução de cerca de 8% no PIB, o Produto Interno Bruto, no intervalo de apenas dois anos. A pobreza ainda domina boa parte da nossa paisagem. A redução da desigualdade social não aconteceu com a velocidade que esperávamos. Muitas das propagadas conquistas sociais foram eliminadas pela inflação, que atinge com mais rigor as camadas pobres da população. Em Brasília, alguns dos nossos mais importantes líderes nacionais estão envolvidos em denúncias de corrupção, incluindo o ex-presidente Lula, ameaçado de prisão. O cisne de 2009 virou o patinho feio de 2016.
Parte da nossa ansiedade resulta ainda de outra transformação importante, a do Brasil que se abre e se expõe ao mundo. Até recentemente éramos um país fechado. Viajávamos pouco ao exterior e participávamos raramente de fóruns, comércio, trocas e eventos internacionais. Reclusos em nossa própria realidade, estávamos também relativamente protegidos da curiosidade estrangeira. Orgulhávamo-nos de ser uma civilização exótica, distante, escondida nos trópicos, longe dos olhares perscrutadores do restante do mundo. Sabíamos, sim, das nossas mazelas, mas conseguíamos conviver com elas sem ninguém, fora de nossas fronteiras, tivesse conhecimento dos nossos muitos defeitos. Éramos corruptos, autoritários, desiguais, ineficientes, pobres, atrasados? Sim, mas nada disso não nos incomodava em demasia até que alguém teve a ideia de candidatar o Brasil a sediar dois dos mais importantes eventos esportivos do planeta: a Copa do Mundo de Futebol de 2014 e, agora, as Olimpíadas. Foi como se nos tivéssemos desnudado perante o mundo.
Na Copa até que não nos saímos tão mal. Sofremos uma derrota histórica, inacreditável, de 7 a 1, diante da poderosa Alemanha, mas, apesar disso, conseguíamos realizar o evento sem maiores constrangimentos. Os novos e modernos estádios ficaram prontos dias antes da estreia do mundial. Houve, sim, corrupção e superfaturamento nas obras e boa parte delas se revelou inútil ao final da Copa. Ainda assim, saíamos de cabeça erguida. A simpatia, o espírito acolhedor e alegre do povo brasileiro superaram amplamente os nossos defeitos mais aparentes.
Agora chegou a vez do nosso segundo teste, o das Olimpíadas. Estamos assustados, mas os muitos sobressaltos que enfrentamos na organização desses dois eventos de certa forma também nos tornaram mais práticos, com os pés no chão, sem grandes ilusões a respeito da nossa identidade e do nosso futuro. Ao nos candidatarmos a sediar os jogos, em 2009, sonhávamos apresentar ao mundo o Brasil que poderia ter sido, mas que, infelizmente, ainda não foi. O que o planeta verá a partir desta semana é simplesmente o que nós somos de fato: um país gigante, bonito, simpático, acolhedor, com grandes potencialidade e enorme problemas. Nem melhor nem pior do que as demais nacionalidades que participarão dos jogos. Mas diferente.
Os jogos olímpicos, tanto quanto foi a Copa do Mundo, são uma oportunidade única para os brasileiros e também para toda a comunidade lusófona, à qual pertencemos. O mundo estará a observar não somente o Brasil, mas a nossa bela e peculiar civilização ibérica e atlântica, africana e americana, que tem na língua portuguesa o seu maior símbolo e da qual somos, pelo tamanho do território e da população, os grandes herdeiros.
Os brasileiros passam por uma experiência inteiramente inédita na sua história. São mais de três décadas de democracia, sem ameaças de ruptura – e esta, sim, talvez seja a melhor notícia que temos a dar ao mundo. É a primeira vez em que todos os brasileiros são chamados a participar da construção do futuro pelo voto e pelo exercício pleno da cidadania num ambiente de liberdade. Isso nunca aconteceu antes. O Brasil das Olimpíadas é, portanto, também uma obra em construção – problemática, imperfeita e talvez atrasada em relação ao cronograma, mas, ainda assim, repleta de sonhos.

 

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Como Hitler, Churchill e Salazar encenaram na Segunda Guerra o drama de Dom João e Napoleão em 1808

Tempos atrás tive o privilégio de participar de um bate-papo com o historiador, escritor e professor português Jorge Couto sobre a fuga da corte de Dom João para o Brasil em 1808. O evento era parte da Festa Santos Populares Portugueses, promovida no antigo Paço Imperial do Rio de Janeiro pelo Consulado Geral de Portugal.

 

Ex-presidente do Instituto Camões e ex-diretor da Biblioteca Nacional de Lisboa, Jorge Couto é um dos intelectuais portugueses mais admirados e respeitados no Brasil. Conhece profundamente a história brasileira e portuguesa. E foi nessa condição que, logo no início do nosso bate-papo, ele contou um episódio fascinante envolvendo Alemanha, Inglaterra e Portugal durante a Segunda Guerra Mundial, em meados do século passado.

 

Segundo o professor Jorge Couto, no início da Segunda Guerra, por muito pouco não se repetiu na Europa o drama encenado em 1808 pelo príncipe regente de Portugal, Dom João, e o imperador francês Napoleão Bonaparte. Entre 1939 e 1940, numa sequência de vitórias assustadoras, as tropas alemãs de Adolf Hitler tinham invadido a Polônia, a França e diversos territórios vizinhos. À primeira vista, pareciam imbatíveis – exatamente como eram as tropas de Napoleão em 1807 e 1808. O próximo passo óbvio do regime nazista alemão seria procurar invadir a Inglaterra e Península Ibérica, também como tentara fazer Napoleão um século e meio antes.

 

Foi nesse cenário dramático que a solução drástica adotada por Dom João em 1807 veio à tona nas discussões dos governos britânico e português. Segundo Jorge Couto, o então primeiro-ministro do Reino Unido, Winston Churchill, tinha planos detalhados de transferir todo o governo britânico para o Canadá na hipótese de Hitler conseguir invadir a Inglaterra.

 

Ou seja, Churchill cruzaria o Oceano Atlântico com toda a corte real britânica, todos os seus ministros, chefes militares e principais lideranças políticas, exatamente como Dom João e sua corte fizeram em 1808. Em terras canadenses, os britânicos estariam mais bem protegidos contra a agressão nazista e, de lá, poderiam organizar a resistência e a eventual reconquista da Inglaterra ocupada.

 

O detalhe mais curioso dessa história é que também em Portugal havia, no início da Segunda Guerra Mundial, planos adiantados de fuga do governo nacional, então comandado pelo presidente do Conselho de Ministros e virtual ditador Antonio de Oliveira Salazar. O projeto nesse caso seria fugir para o Arquipélago dos Açores, parte do território português situado no meio do Oceano Atlântico, a cerca de duas horas de vôo a partir de Lisboa. Era, portanto, um plano semelhante ao executado por Dom João e na mesma capital portuguesa ocupada pelos franceses de Napoleão no final de novembro de 1807.

 

Como se sabe, esses projetos não tiveram sequência porque, logo em seguida, os Estados Unidos entraram na guerra ao lado dos ingleses, o que tornou inviáveis os planos iniciais de Hitler. Portugal, enquanto isso, negociava uma posição de neutralidade entre os alemães e os aliados, seguindo o exemplo da vizinha Espanha, comandada pelo também ditador Francisco Franco. Nessa condição, conseguiu evitar que a temida invasão e a consequente fuga se repetissem.

(Nas fotos abaixo: Hitler, Churchill e Salazar)

Hitler, Churchill e Salazar Churchill Salazar

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