13 de julho de 2014

A tragédia brasileira vista de Middlebury, Vermont, Estados Unidos

Acompanhei a inacreditável derrocada da seleção brasileira na Copa do Mundo de uma perspectiva diferente e inusitada. Estou em Middlebury, estado de Vermont, nos Estados Unidos, quase na fronteira com o Canadá, como professor de História e Cultura brasileiras para um grupo de estudantes de língua portuguesa da Middlebury College, uma das mais importantes universidades americanas no campo das ciências humanas – aqui chamadas de “liberal arts”.

Middlebury College abriga durante o verão a mais antiga e respeitada escola de línguas estrangeiras dos Estados Unidos. Aqui foi inventado, um século atrás, o chamado “sistema de imersão”, no qual os alunos isolam-se completamente do restante do mundo durante sete semanas no esforço de aprender o novo idioma: dormem, acordam, tomam café-da-manhã, almoçam, tem aulas, participam de atividades, jantam e voltam a dormir sem dizer ou ouvir uma única palavra de sua língua nativa. Ficam em contato com professores e colegas de classe o tempo todo com a obrigação de só se comunicar no idioma que estão aprendendo. Isso envolve um “pledge”, ou seja, um juramento público, no início do curso, no qual esse compromisso é celebrado coletivamente.

Na pequena cidade vizinha ao campus universitário, de apenas 8.000 habitantes, os moradores e comerciantes também se empenham em participar do “pacto”, comprometendo-se a atender os estudantes sem a necessidade de falar inglês. Nesse caso, quando as dificuldades de entendimento são muito grandes, por exemplo em uma farmácia ou supermercado, usa-se a linguagem mais universal e eficaz que existe: a mímica. O inglês, só minimamente.

A universidade de Middlebury foi criada em 1800, onze anos após a Inconfidência Mineira e oito anos antes da chegada da corte portuguesa de Dom João ao Rio de Janeiro. O primeiro curso de línguas estrangeiras, o de alemão, é de 1915, três anos depois da criação da primeira universidade brasileira, em 1912 (na verdade, são três as primeiras universidades brasileiras nesse ano, a do Brasil, atual UFRJ, no Rio de Janeiro; a Federal do Paraná; e a Federal do Amazonas). Atualmente, funcionam em Middlebury oito cursos de línguas estrangeiras: alemão, chinês, espanhol, hebraico, russo, francês, japonês e português. Em outro campus da universidade, na Califórnia, ensinam-se também italiano, árabe e outra turma de espanhol. No ano que vem serão onze cursos ao todo, com a introdução do coreano no currículo.

A escola de português, dirigida com grande competência e habilidade pela professora paranaense Maria Luci De Biaji Moreira, doutora pela Universidade de Illinois, Urbana-Champaign, funciona há doze anos consecutivos. Um de seus primeiros professores convidados (mesma condição em que estou aqui hoje), foi o antropólogo Roberto DaMatta, que em 2008 comparou Middlebury à Montanha Mágica de Thomas Mann:

“Ali, cercado das belíssimas montanhas verdes, que dão nome ao estado de Vermont (…), vi com esses olhos que a terra há de comer, gente que jamais havia falado uma palavra de português recitando Fernando Pessoa, Bandeira e Affonso Romano de Sant’Anna. Observei americanos virando brasileiros, estabelecendo contato visual e gestual obrigatório quando passavam uns pelos outros, abandonando o viver dentro das bolhas individualistas ianques que não demandam o reconhecimento de ninguém. Com isso, tomei consciência do incrível trabalho do idioma como perspectiva e classificação arbitrária e inventiva do mundo”.

Em Middlebury encontrei uma equipe de professores de português talentosa e dedicada. Encontrei também dezenas de jovens estudantes estrangeiros muito interessados na história, nos costumes e no peculiar jeito brasileiro de ser, que continua a encantar o mundo (as aulas incluem samba, capoeira, festa junina, feijoada e capítulos das telenovelas depois do jantar). E como o Brasil reage a isso? Nesse caso, infelizmente, as notícias não são das melhores. O número de alunos do curso de português de Middlebury – como, de resto, em todos os Estados Unidos – continua a crescer, mas não tanto quanto poderia e deveria – ou, pelo menos, como a língua portuguesa mereceria.

A culpa não é da qualidade da escola ou dos professores, que são excelentes, mas a óbvia queda de prestígio do Brasil entre os americanos e estrangeiros em geral. O Brasil do mensalão, do pibinho, das obras super-faturadas da Copa e da corrupção, deixou de ser “a bola da vez” no mundo. Atualmente, as escolas que mais crescem são as de chinês e russo. A de chinês está repleta de jovens empreendedores, muitos ligados à área de internet e novas tecnologias, ansiosos por fazer carreiras e fortunas na nova fronteira asiática dos negócios. A de russo é a que concentra maior número de americanos querendo dominar o idioma de Vladimir Putin. Por razões também óbvias.

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A cidade de Middlebury, Vermont: sede da melhor e mais conceituada escola de línguas dos Estados Unidos

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22 de junho de 2014

Acabar com um feriado resolve os problemas do Brasil?

Um projeto apresentado na Câmara pelo deputado Newton Cardoso (PMDB-MG) propõe acabar com o feriado de Quinze de Novembro. Na defesa de sua proposta, o parlamentar mineiro usa alguns argumentos do meu último livro, 1889, sobre a Proclamação da República. Na introdução do livro, escrevi o seguinte:

“O Quinze de Novembro é uma data sem prestígio no calendário cívico brasileiro. Ao contrário do Sete de Setembro, dia da Independência, comemorado em todo o país com desfiles escolares e militares, o feriado da Proclamação da República é uma festa tímida, geralmente ignorada pela maioria das pessoas”.

Acrescentei que, na minha opinião, a falta de prestígio desse feriado se deve a dois fenômenos importantes:

1 – A república brasileira nasceu descolada das ruas em 1889. Diferente do que faziam supor os discursos e anúncios oficiais, a república brasileira não resultou de uma campanha com intensa participação popular. Em vez disso, foi estabelecida por um golpe militar com escassa e tardia participação das lideranças civis;

2 – A república brasileira tem sido um regime que promete muito e cumpre pouco. Em 1889, os propagandistas republicanos acenavam com a ampliação do direito do voto, o respeito aos direitos individuais e à liberdade de imprensa, entre outras bandeiras civis. Essas promessas raramente se concretizaram na nossa história republicana, permeada por ditaduras, golpes militares, intervenções violentas nas instituições e repressão sistemática às vozes discordantes.

A estranheza entre as promessas e a prática republicanas esclarece, em parte, a atual falta de prestígio do Quinze de Novembro no calendário cívico nacional.

Isso, por si só, justificaria acabar com o feriado da Proclamação da República? No meu ponto de vista, não.

Nosso desafio não é acabar com o feriado e reformar o calendário cívico nacional, mas assumir, de fato, a república que nós temos – ou deveríamos ter.

Qual república? Não aquela nascida de um golpe militar em 1889, mas a outra brotada nas ruas na Campanha das Diretas Já em 1984 e referendada nas urnas no plebiscito de 1993.

Como escrevi em um post anterior deste blog, o Brasil republicano ainda sonha com o imperador.

Mesmo tendo proclamado e referendado a república e a democracia nas Diretas de 1984 e no plebiscito de 1993, os brasileiros, em geral, ainda tem uma perspectiva monárquica e autoritária do poder. Como regra, o brasileiro é avesso a qualquer forma de participação na atividade política – não participa dos partidos, dos sindicatos e das comunidades de bairro, foge ao trabalho voluntário em prol do interesse comum, não comparece às reuniões de pais nas escolas e nem mesmo às assembleias de condomínio no prédio onde mora. Vota e no dia seguinte se esqueça do nome do candidato que escolheu. Ainda assim, sem participar de nada, cobra muito do Estado, visto como o provedor absoluto de todos os benefícios sociais possíveis – saúde, educação, segurança, transporte, saneamento, infra-estrutura e até cidadania.

Essa, no meu entender, é uma herança monárquica. É a falsa noção de que os brasileiros, mesmo sem participar de nada, poderão sempre contar com a ação de um soberano sábio e magnânimo (um pai de todos, para usar uma analogia freudiana), capaz de zelar  pelo bem-estar geral. Trata-se de uma perspectiva não-republicana da política e do poder, que remete aos imaginário dos tempos do imperador Pedro II, um homem austero, intelectual, amante das ciências e das artes, cuja missão seria nos conduzir a um futuro grandioso sem que os beneficiários das transformações precisassem ou pudessem dar palpites.

Nosso grande desafio, portanto, não está relacionado ao calendário cívico, mas à imensa e histórica dificuldade que nós, brasileiros, temos demonstrado em nos organizar e pactuar nosso caminho em direção ao futuro. Hoje está relacionado principalmente a uma certa relutância em aceitar a nossa responsabilidade pela construção desse futuro em um ambiente de democracia. Democpracia republicana sem participação não funciona. É um projeto falido. Temos de assumir, de fato, a nossa condição democrática e republicana e entender que, sem participação política, não há solução possível para os nossos problemas.

Aí, sim, seremos merecedores do feriado da Proclamação da República.

Deodoro e a Proclamação da República, por Henrique Bernardelli

Deodoro e a Proclamação da República, por Henrique Bernardelli

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3 de junho de 2014

O Brasil republicano ainda sonha com o imperador

Ao participar de um bate-papo com leitores no começo desta semana, em Teresina, alguém repetiu uma pergunta que me tem acompanhado com insistência desde que lancei o livro 1889:

– O Brasil seria melhor como monarquia ou como república?

Uma resposta resumida poderia ser: nem uma coisa nem outra. Nosso grande desafio não está relacionado à forma ou ao nome do regime de governo, mas à imensa e histórica dificuldade que nós, brasileiros, temos demonstrado em nos organizar e pactuar nosso caminho em direção ao futuro. Hoje está relacionado principalmente a uma certa relutância em aceitar a nossa responsabilidade pela construção desse futuro em um ambiente de democracia. “O brasileiro ainda tem uma perspectiva monárquica do poder porque espera muito do Estado, mas não participa de nada”, afirmei em Teresina. “Temos de assumir, de fato, a nossa condição democrática e republicana e entender que, sem participação política, não há solução possível para os nossos problemas.”

O Brasil é um país de herança mais monárquica do que republicana. Foi a coroa portuguesa que se responsabilizou pela colonização, pela organização e pela ocupação do território brasileiro nos três séculos que precederam a chegada da corte de Dom João ao Rio de Janeiro, em 1808. Promovido a Reino Unido em dezembro de 1815, o Brasil se manteve como monarquia por mais 74 anos, até a Proclamação da República em 1889. Foi o único país da América a ter dois reis e dois imperadores (Dona Maria I, a rainha louca, até março de 1816, data de sua morte; e Dom João VI, rei até a Independência, em 1822; Dom Pedro I, imperador até 1831; e Dom Pedro II, imperador até 1889, incluindo-se o período da Regência, de 1931 a 1840). Ao longo de quase todo o século 19, o Brasil funcionou como uma “flor exótica” nos trópicos – uma ilha monárquica cercada de repúblicas por todos os lados. A República é, portanto, um conceito relativamente recente na nossa história.

Monarquia e república, no entanto, compartilham um traço que marcou profundamente a trajetória brasileira. É a construção nacional centralizada, forte, às vezes autoritária, de cima para baixo, sem que a imensa maioria da população pudesse ou fosse chamada a participar das escolhas. Da chegada da corte ao Rio de Janeiro até a queda da monarquia, coube a uma pequena e relativamente bem educada elite imperial organizar e administrar o país, incluindo um esforço notável e bem sucedido de manter a integridade territorial tantas vezes ameaçada até meados do século 19. O ambiente da corte no Rio de Janeiro e em Petrópolis tentava imitar a estética e os rituais de Versalhes e Viena, mas a realidade nas ruas era bem diferente, de escravidão, pobreza, analfabetismo e latifúndio. Portanto, um oceano de não-cidadãos, brasileiros não autorizados e sequer capacitados a participar da construção nacional.

A república chegou em 1889 acenando com mudanças nesse cenário, mas falhou no cumprimento de suas promessas. Os propagandistas republicanos defendiam, entre outras coisas, respeito às liberdades individuais e ampliação do direito do voto. O novo regime, porém, se impôs pela força das armas e logo se converteu em ditadura sob Deodoro da Fonseca e Floriano Peixoto, o “Marechal de Ferro”. Os civis retomaram o poder com Prudente de Morais e Campos Salles, mas a equação política da Primeira República era muito parecida com a do império. Na chamada república dos fazendeiros – também conhecida como “do café com leite” ou “dos governadores” – a mesma aristocracia rural que mandava na monarquia conduziu os destinos do novo regime. A fraude eleitoral e o voto de cabresto, caracteristas da política imperial, se mantiveram impávidos até 1930. O índice de participação eleitoral foi mínimo, inferior até ao dos últimos pleitos do período monárquico.

A república que se seguiu à Revolução de 30 empenhou-se no combate ao coronelismo e ao voto de cabresto, mas manteve ainda um traço de afinidade com a monarquia que a precedeu: a condução forte e centralizada das decisões. Nesse aspecto, poderia ser definida como uma “república monárquica”. Aos “imperadores republicanos” que se sucederam no poder no meio século seguinte coube a tarefa de continuar a organizar e controlar tudo de cima para baixo, exatamente como na época da monarquia. O caso mais exemplar é o de Getúlio Vargas, um genuíno “imperador republicano” durante o Estado Novo, entre 1937 e 1945, empenhado em industrializar o país e reformar leis e costumes (incluindo a criação da CLT e a organização dos sindicatos) com o Congresso fechado, a imprensa sob censura e os opositores na cadeia. A situação semelhante se repetiu entre 1964 e 1984. Os generais-presidentes desse período eram, uma vez mais, “imperadores republicanos fardados” que, tanto quanto Getúlio, bebiam no ideario positivista de August Comte, defensor de uma “ditadura republicana” forte, verticalizada e capaz de tutelar o regime até que o restante da população estivesse habilitado a participar das decisões.

A democracia republicana brasileira é, portanto, uma experiência muito nova nessa história de perfil autoritário. Foi exercida de fato apenas entre 1946 e 1964 e de 1984, ano do fim do Regime Militar, até agora. Somados esses dois períodos, em quinhentos anos de história o Brasil não chega a ter meio século como nação democrática e republicana.

A Campanha das Diretas Já, em 1984, pode ser considerada uma segunda proclamação da república. Desta vez, não mais por um general a cavalo impondo a mudança do regime, como em 1889, mas pelo povo nas ruas pedindo o direito de votar. Em 1988, como decorrência da redemocratização, o Brasil promulgou uma nova constituição republicana. E cinco anos mais tarde promoveu um peculiaríssimo plebiscito (prometido 104 anos antes, na noite de Quinze de Novembro de 1889, pelo professor e tenente-coronel Benjamin Constant) no qual nós, brasileiros, decidimos nas urnas que o país seria efetivamente uma república e não uma monarquia.

Desde então a democracia republicana tem sido um aprendizado lento e difícil, sujeito a algumas vitórias e também a muitas desilusões. Hoje, o inegável sentimento de frustação pode ser medido pelas manifestações de rua e pela óbvia apatia cívica que tomou conta dos brasileiros nesta véspera de Copa do Mundo. Por que é tão difícil mudar o Brasil? Somos, afinal, um povo naturalmente corrupto e violento? Por que o estado brasileiro é tão ineficiente? São perguntas que pairam no ar, permeadas por uma certa nostalgia autoritária (mais autoritária do que monárquica) que se pode observar em grupos que defendem nas redes sociais a volta de um regime forte, capaz de enfrentar todos os problemas mediante uma intervenção nas instituições e a quebra da ordem legal vigente.

No meu entender, a democracia republicana só vai se consolidar de fato na nossa história à medida em que essa fórmula de construção nacional devolver aos brasileiros os benefícios que dela esperam, na forma de mais e melhores serviços públicos, justiça e oportunidades para todos. Para que isso aconteça, no entanto, é preciso que antes o país passe por uma profunda transformação de natureza cultural.

Mesmo tendo proclamado e referendado a república e a democracia nas Diretas de 1984 e no plebiscito de 1993, os brasileiros, em geral, ainda tem uma perspectiva monárquica e autoritária do poder. Como regra, o brasileiro é avesso a qualquer forma de participação na atividade política – não participa dos partidos, dos sindicatos e das comunidades de bairro, foge ao trabalho voluntário em prol do interesse comum, não comparece às reuniões de pais nas escolas e nem mesmo às assembleias de condomínio no prédio onde mora. Vota e no dia seguinte se esqueça do nome do candidato que escolheu. Ainda assim, sem participar de nada, cobra muito do Estado, visto como o provedor absoluto de todos os benefícios sociais possíveis – saúde, educação, segurança, transporte, saneamento, infra-estrutura e até cidadania.

Essa, no meu ponto de vista, é uma herança monárquica. É a falsa noção de que os brasileiros, mesmo sem participar de nada, poderão sempre contar com a ação de um soberano sábio e magnânimo (um pai de todos, para usar uma analogia freudiana), capaz de zelar  pelo bem-estar geral. Trata-se de uma perspectiva não-republicana da política e do poder, que remete aos imaginário dos tempos do imperador Pedro II, um homem austero, intelectual, amante das ciências e das artes, cuja missão seria nos conduzir a um futuro grandioso sem que os beneficiários das transformações precisassem ou pudessem dar palpites.

Outra dificuldade no Brasil de hoje está relacionada ao conjunto de aspirações e valores que projetamos na atividade política e que nem sempre está de acordo com aqueles cultivados no dia-a-dia das pessoas. O brasileiro em geral cobra do Estado padrões de honestidade, ética e eficiência que ele próprio não cultiva nas suas relações privadas. Na conversa entre amigos em uma mesa de bar, muitas pessoas às vezes pregam o voto nulo e até o fechamento do Congresso com a desculpa de que a política é por natureza uma atividade corrupta e que dela não vale a pena participar. No dia-a-dia, porém, essas mesmas pessoas jogam lixo na rua, furam fila, dirigem o carro pelo acostamento quando o trânsito está congestionado, deixam o som ligado em alto volume até de madrugada sem se importar com o sono do vizinho. E corrompem o agente público sempre que isso for da sua conveniência. Essa também é uma perspectiva não-republicana e não-democrática do poder.

É quase impossível construir um Brasil melhor em um ambiente de democracia no qual as pessoas ignoram ou mesmo desprezam o principal instrumento de transformação de que dispõem: o voto e a participação na atividade política. Em uma república democrática quem constitui o Estado não é o rei, nem o imperador e nem o ditador. São os cidadãos, ou seja, as pessoas que compõe a sociedade, chamadas a participar do processo decisório, o que inclui o exercício consciente do voto. A configuração do estado em Brasilia será sempre produto direto das escolhas que fizermos nas urnas e na prática cotidiana da política. Será também um espelho do que somos na média no que diz respeito aos nossos valores éticos e morais. Nem melhor nem pior.

Para que esse Estado reflita, de fato, nossos anseios e valores é preciso que estejamos dispostos a assumir a nossa condição democrática e republicana – o que o envolvimento na política como cidadãos em plenos direitos. O voto e a participação política são direitos pelos quais muitas gerações lutaram e sofreram até recentemente. Ignorá-los ou desprezá-los seria, portanto, um grave erro, além de uma grande injustiça para com os brasileiros que nos precederam. Botar a culpa dos problemas atuais em vilões genéricos – como “os políticos”, “as elites” ou “a mídia” – é apenas fugir à responsabilidade que a república e a democracia exigem de nós. Trata-se de um exercício estéril de auto-negação, inadimissível em um ambiente no qual, pela primeira vez em cinco séculos, todos os brasileiros estão sendo chamados a participar da construção do futuro.

O Brasil que, em estado de choque cívico, prepara-se para sediar a Copa do Mundo a partir da próxima semana é como um gigante nú que, na frente do espelho, se pergunta: Quem sou eu? E agora, para onde vou? Quem vai cuidar de mim?

A resposta para essas perguntas está na imagem refletida no próprio espelho.

Manifestações rua: o Brasil em estado de choque cívico

Manifestações rua: o Brasil em estado de choque cívico

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26 de maio de 2014

A República com um dia de atraso no Pará

Assíduo frequentador de museus históricos, Fábio Steinberg, jornalista e escritor amigo meu, ficou intrigado dias atrás ao encontrar em Belém uma placa comemorativa da Proclamação da República com a data de Dezesseis de Novembro de 1889. “A República chegou atrasada ao Pará?”, perguntou-me por email, no qual fez questão de anexar a foto do texto que tanto surpreendeu.

A rigor, pode-se dizer que não apenas o Pará, mas todo o Brasil, só se tornou realmente republicano em Dezesseis de Novembro de 1889. No dia anterior, ao contrário do que reza a História oficial, em momento em algum o marechal alagoano Deodoro da Fonseca, derrubou a monarquia e proclamou a República no Rio de Janeiro. Ele apenas destituiu o gabinete do Visconde de Ouro Preto, chefe do ministério monárquico, contra o qual as Forças Armadas vinham se batendo na chamado Questão Militar. Durante todo aquele dia, Deodoro relutou em promover a mudança do regime, o que só ocorreu mesmo na madrugada do dia 16, quando o velho marechal recebeu a notícia de que o imperador Pedro II havia chamado para compor um novo ministério o senador gaúcho Gaspar da Silveira Martins, seu inimigo pessoal.

No Pará, porém, os acontecimentos fizeram com que mesmo na História oficial a data da Proclamação da República se tornasse o dia 16 de Novembro.

As notícias da queda do império se espalharam rapidamente graças ao telégrafo. Na tarde de Quinze de Novembro, seguindo instruções do professor e tenente-coronel Benjamin Constant, o tenente José Vinhais, tomou posse da Repartição Geral dos Telégrafos no Rio de Janeiro, até então chefiada pelo Barão de Capanema. Dali passou a disparar mensagens para os presidentes das províncias anunciando a implantação da república, embora até aquele momento o novo regime ainda não estivesse oficializado pelo governo provisório. Ao contrário do que se poderia esperar, a repercussão diante de tão extraordinário acontecimento foi mínima. A resignação foi geral.

Curiosamente, a reação monárquica mais importante ocorreu na Bahia, liderada por ninguém menos do que o irmão do Marechal Deodoro, o general Hermes Ernesto da Fonseca, governador de Armas da província. Ao receber as notícias do Rio de Janeiro, Hermes Ernesto anunciou que permaneceria fiel ao imperador Pedro II. Às 10h da manhã do dia 16, despachou um telegrama ao governador do Pará, Silvino Cavalcante de Albuquerque, no qual avisava que pretendia resistir à república. Pedia que Silvino o acompanhasse na decisão. De início, o governador paraense concordou, mas no meio da tarde foi obrigado a renunciar, depois que tropas leais a Deodoro, incluindo o contingente do Corpo de Bombeiros, cercaram o palácio em Belém. Ao deixar o cargo, Silvino lavrou um protesto em nome “do direito, da honra e da pátria”, que entregou ao chefe republicano Paes de Carvalho.

Enquanto isso, na Bahia, o general Hermes Ernesto capitulava ao saber que o próprio irmão liderava a Proclamação da República e que, àquela altura, o imperador já estava a caminho do exílio na Europa. “Eu sou republicano desde o dia 15 de novembro, mas o meu irmão Hermes é de 16”, diria mais tarde o marechal Deodoro, ao se referir ao episódio de forma divertida.

Com exceção desse caso pitoresco, os protestos em outras regiões do Brasil foram isolados e sem consequência.

Portanto, a República, de fato, chegou ao Pará com um dia de atraso, como corretamente informa a placa que surpreendeu o meu amigo no museu de Belém.

A placa no museu de Belém com a Proclamação da República em Dezesseis de Novembro

A placa no museu de Belém com a Proclamação da República em Dezesseis de Novembro

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