2 de junho de 2015

Uma recomendação de leitura: “Cova 312″, de Daniela Arbex

Nos últimos anos, poucas atividades humanas tiveram a sua morte anunciada de forma tão enfática e frequente quanto o Jornalismo. Novas tecnologias digitais tornariam irrelevantes jornais, revistas, livros-reportagens, programas noticiosos de rádio e televisão, como se fossem relíquias inúteis do passado que a sociedade moderna precisasse descartar o mais rapidamente possível. No ambiente das redes sociais, qualquer pessoa munida de um smartphone passaria a produzir conteúdo, de forma rápida, gratuita, de distribuição global e instantânea. Quem precisaria de repórteres e editores profissionais? Uma segunda profecia tenebrosa sobre o futuro do Jornalismo diz respeito às mudanças nos hábitos dos consumidores. Nesse novo e admirável mundo movido a entretenimento e mensagens audio-visuais, o velho e bom leitor também estaria desaparecendo. Reza o senso comum que as de pessoas hoje, em especial os jovens, não gostam de ler texto grandes. Preferem informação curta, de consumo rápido e sem sofrimento, que não exija tempo nem muita concentração.

Um livro recém-lançado no Brasil desmente esses e vários outros mitos. Trata-se de “Cova 312: a longa jornada de uma repórter para descobrir o destino de um guerrilheiro, derrubar uma farsa e mudar um capítulo da História do Brasil” (Geração Editorial, 342 páginas). Tive o privilégio de escrever o prefácio, cujo texto reproduzo em partes neste post. Sua autora, a escritora e jornalista Daniela Arbex, mostra que a boa reportagem continua viva, atraente e transformadora como sempre foi. Um dos mais respeitados e bem sucedidos talentos da atual geração de repórteres investigativos brasileiros, Daniela comprova também que, embora o formato de distribuição esteja mudando, o Jornalismo de qualidade se mantem como uma ferramenta essencial ao bom funcionamento da sociedade. No longo prazo, o papel e os meios convencionais de distribuição talvez estejam com seus dias contados, mas o efeito de uma reportagem bem apurada e relevante do ponto de vista do interesse coletivo jamais perderá o espaço previlegiado que até hoje ocupou.

Repórter do jornal Tribuna de Minas especializada na área de direitos humanos, Daniela Arbex já recebeu inúmeros prêmios por reportagens de grande impacto. Em 2014, conquistou o troféu do Prêmio Jabuti (segundo lugar) na categoria Livro-Reportagem com Holocausto Brasileiro, uma investigação de casos de maus-tratos em manicômios e instituições responsáveis pelo amparo a pessoas com transtornos mentais.

Desta vez, Daniela se debruça sobre uma história diferente, mas tão ou até mais fascinante que as anteriores. Cova 312 nasceu de uma série também premiada de reportagens publicada pela Tribuna de Minas em 2002. Nela, a jornalista narra a história dos personagens que passaram pela Penitenciária  Regional de Juiz de Fora, também conhecida como Penitenciária de Linhares, uma das mais importantes prisões políticas durante o regime militar brasileira de 64. Entre eles estão nomes hoje famosos, como o atual governador de Minas Gerais, Fernando Pimentel, o ex-prefeito de Belo Horizonte Márcio Lacerda e o ex-deputado federal Gilney Viana. Estão também pessoas relativamente desconhecidas no noticiário brasileiro recente, que preferiram mergulhar no anonimato e se afastar de qualquer atividade política depois de sofrer torturas e humilhações nos cárceres durante aquele período repressivo.

O caso mais importante e fio condutor da narrativa é  o do gaúcho Milton Soares de Castro, combatente da Guerrilha do Caparaó, 26 anos, e cujo destino trágico dá nome ao livro. Coube a Daniela Arbex decifrar durante as investigações para esta série de reportagem um dos mistérios mais bem guardados da ditadura militar: o paradeiro do corpo de Milton, único prisioneiro político encontrado morto nas dependências da Penitenciária de Juiz de Fora, em 1967. Oficialmente, tratou-se de um suicídio. É isso que consta do inquérito policial, da autópsia do corpo e do processo relacionado à morte do guerrilheiro. Como o leitor verá no desfecho desse livro, a história verdadeira é bem diferente. Graças aos esforços investigativos de Danela, acaba de cair por terra mais uma tentativa frustrada de esconder o passado e seus horrores, como queriam as autoridades da época.

O bom exemplo de Daniela indica que os jovens e promissores jornalistas de hoje deveriam estar mais preocupados em fazer boas reportagens do que com o efeito das transformação nas novas tecnologias dentro das redações. O futuro do Jornalismo e o futuro do papel (ou da televisão ou do rádio) são coisas diferentes. Os meios de distribuição estão mudando, e rapidamente, mas a importância do bom conteúdo jornalistico se mantem inalterado. Nosso desafio, portanto, não é a mudança nos formatos, mas a qualidade da reportagem.

A mesma revolução tecnológica que está mudando o comportamento e os hábitos do público consumidor também está afetando a rotina repórteres. A internet facilita o trabalho de apuração das informações, mas pode também gerar um certo empreguiçamento geral nas redações. Muitos jornalistas se tornaram reféns da tela do computador, em vez de ir para a rua, entrevistar pessoas, testemunhar os acontecimentos e tomar contato com a realidade fora dos ambintes corporativos. O resultado é a superficialidade. A informação, em muitos casos, ficou mais leve do que o ar. Perdemos substância.

Vivemos, portanto, um momento decisivo. O futuro do Jornalismo vai depender muito do empenho, do talento e da capacidade de inovar de cada profissional envolvido nesse desafio. Nesse mundo em acelerada transformação, repórteres e editores continuam a exercer prerrogativas essenciais, que nenhuma revolução tecnológica será capaz de lhes tirar.

É preciso saber investigar, bater nas portas e fontes certas, balancear corretamente a informação, exercer o chamado contraditório, que significa confrontar diferentes fontes e versões no esforço de chegar o mais próximo possível da verdade. Boa reportagem exige talento, experiência, tempo, dedicação, sendo de responsabilidade social e compromisso honesto e sincero com as necessidades dos leitores.

Essas e outras importantes lições estão presentes neste novo livro de Daniela Arbex. O tema pode parecer pesado e, como trata de episódio ainda mal resolvido da história recente brasileira, dificil de digerir. Seria assim não fosse a capacidade prodigiosa de Daniela Arbex de transformar histórias tráficas em uma narrativa fluida, atraente, poética e, em alguns momentos, até divertida. Como o leitor verá nas páginas a seguir, graças ao talento de repórteres como Daniela Arbex, o Jornalismo está mais vivo do nunca esteve.

 

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13 de maio de 2015

O preço da Lei Áurea para o Império do Brasil

Nos 127 anos da assinatura da Lei Áurea, um trecho do capítulo ‘A Redentora’, do meu livro ’1889′, que trata do papel desempenhado pela abolição da escravidão na queda da monarquia no Brasil:

“Ao assinar a Lei Áurea, em Treze de Maio de 1888, a Princesa Isabel propiciou um derradeiro e fugaz momento de popularidade da monarquia brasileira, já abalada pelos conflitos da Questão Militar e pelo avanço da propaganda republicana. Em razão disso, recebeu homenagens e celebrações em todo o país, em especial por parte de negros, mulatos e ex-escravos que viam na princesa a protetora que jamais haviam tido em toda a história brasileira. O mulato e abolicionista José do Patrocínio, lhe deu o título de A Redentora, com o qual é reconhecida até hoje entre os brasileiros. A mesma Lei Áurea, no entanto, tirou do trono o seu mais sólido pilar de sustentação: a aristocracia rural e escravagista representada, principalmente, pelos barões do café do Vale do Paraíba.

Para os senhores de escravos, a abolição havia sido um atentado contra o direito de propriedade. Eles consideravam os cativos um bem particular, tão valioso quanto as fazendas, as lavouras de café e cana, os engenhos de açúcar e outros itens de seu patrimônio. Forçados a aceitar o fim da escravidão depois de décadas de resistência, exigiam que o governo concordasse, ao menos, em indenizá-los pelos prejuízos que julgavam sofrer. Os abolicionistas, porém, discordavam desse ponto de vista. Um deles, o engenheiro André Rebouças, sustentava que, após a abolição, quem deveria receber indenização não eram os proprietários, mas os escravos em razão do trabalho forçado e dos abusos a que foram submetidos ao longo da vida.

O governo adotou essa linha por uma questão prática: aos preços vigentes na época da Lei Áurea, os 700 000 escravos ainda existentes no país valeriam cerca de 210 milhões de contos de réis, enquanto que o orçamento geral do império não passava de 165 milhões de contos de réis. Indenizar os senhores de escravos seria, portanto, impossível. Ao ver suas reivindicações ignoradas, a aristocracia rural sentiu-se traída pela monarquia. Como resultado, nos meses seguintes à assinatura da lei, aderiu em massa à causa republicana”.

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11 de maio de 2015

Meu novo desafio: uma Historia da Escravidão no Brasil

Desde o lançamento do meu último livro, 1889, sobre a Proclamação da República, leitores e amigos tem me perguntado com frequência qual seria a minha próxima obra. São muitos os temas que me atraem na história do Brasil. Por isso, relutei por algum tempo a dar uma resposta conclusiva. Chegou a hora de desfazer o mistério. Meu novo projeto editorial é uma série de três livros sobre a história da escravidão no Brasil, com previsão de lançamento a partir de 2019. Eu acredito que, 127 anos depois da assinatura da Lei Áurea pela Princesa Isabel, esse é um passivo histórico que os brasileiros ainda não conseguiram resolver. O grande abolicionista pernambucano Joaquim Nabuco afirmava que o Brasil estava condenado a continuar no atraso enquanto não resolvesse de forma satisfatória a herança escravocrata. Para ele, não bastava libertar os escravos. Era preciso incorporá-los à sociedade como cidadãos de pleno direito, o que até hoje não aconteceu de fato. Por essa razão, escolhi a escravidão como tema dessa nova trilogia. Acredito seja o assunto mais importante de toda a nossa história.

O Brasil foi o maior território escravagista do hemisfério ocidental por mais de 350 anos. Estima-se que de um total de onze milhões de cativos africanos trazidos para as Américas 40% tiveram como destino as senzalas brasileiras. Foi também o país que mais tempo resistiu a por fim ao tráfico negreiro e o último do continente americano a abolir a mão de obra escrava pela chamada Lei Áurea, de Treze de Maio de 1888 – quatro anos depois de Porto Rico e dois depois de Cuba. O tráfico de escravos era um negócio gigantesco, que movimentava centenas de navios e milhares de pessoas dos dois lados do Atlântico.

Tenho vários outros projetos em andamento, incluindo iniciativas na área audiovisual e livros em coautoria que serão anunciados em breve, mas a escravidão é o tema que vai dominar minha agenda pelos próximos seis ou sete anos. É um trabalho de longo prazo, para ser concluído em 2021 ou 2022, porque exige pesquisas exaustivas em bibliotecas, museus e centros de estudos no Brasil e outros países. A bibliografia é enorme, com centenas de livros publicados aqui e no exterior. Como são livros-reportagem, vou percorrer três continentes – África, Europa e Américas – com o objetivo de entrevistar pessoas e visitar dezenas de lugares relacionados à história da escravidão, como os pontos de onde partiam os navios negreiros na costa da África e as regiões de desembarque no Brasil, no Caribe e nos Estados Unidos.

Espero que os leitores tenham paciência de aguardar por tanto tempo essa nova trilogia – e, principalmente, que gostem do resultado!

A escravidão retratada por   Debret: passivo histórico

A escravidão retratada por Debret: passivo histórico

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6 de maio de 2015

Na terra de Pedro Álvares Cabral

Na próxima semana embarco para Portugal com o objetivo de participar dos eventos lançamento do meu livro mais recente, “1889″, sobre a Proclamação da República no Brasil, no mercado editorial português. A agenda oficial começa em Lisboa com uma palestra na Casa da América Latina, no dia 21, às18h30. No dia seguinte, 22, estarei no Teatro Municipal de Vila Real, às 21h30, participando do programa Viagem Literária, da Porto Editora, ao lado do escritor Richard Zimler e do jornalista João Paulo Sacadura. No dia 24, será a vez da heróica cidade do Porto, onde converso com os leitores no evento Porto de Encontro, a ser realizado na Casa das Artes com apresentação do jornalista, professor (e meu amigo pessoal) Carlos Magno. Por fim, no dia 28, às 17h, estarei na Feira do Livro de Lisboa para uma sessão de autógrafos no espaço do Grupo Porto Editora.

Um evento em particular, no entanto, tem especial importância para nós brasileiros, embora não esteja no roteiro oficial de lançamentos. É uma visita à cidade de Belmonte, dia 26 de Maio, onde me apresento à noite no Museu Judaico. Fundada no Século 12, Belmonte pode ser considerada o local em que o Brasil começou porque ali nasceu o navegador Pedro Álvares Cabral, comandante da expedição que chegou a Porto Seguro, na Bahia, no dia 22 de abril de 1500, iniciando a história da colonização portuguesa na América. Terei como anfitriões o os jornalistas José Venâncio Resende e José Levy Domingos (que também é historiador), dois portugueses com profundo interesse pelo Brasil e sua história.  Em Belmonte, além de conversar com os leitores no auditório do Museu Judaico, visitarei o Museu dos Descobrimentos, o Panteão dos Cabrais ( onde estão as cinizas de Pedro Alvares Cabral e o tumulo de seus familiares), o Castelo ( onde terá nascido o navegador Cabral) e a Biblioteca Municipal.

Belmonte é também conhecida pela história da resistência dos judeus sefaraditas à intolerância religiosa na Península Ibérica.

Agradeço desde já a José Venâncio e José Levy a gentileza do convite. Na minha passagem por Belmonte, escreverei aqui outros posts para compartilhar com meus leitores brasileiros e portugueses novas informações sobre Pedro Álvares Cabral e alguns mistérios relacionados ao descobrimento do Brasil que ainda hoje desafiam os historiadores.

http://pt.wikipedia.org/wiki/Belmonte_(Portugal)

 

 

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