29 de janeiro de 2015

O passado aponta o caminho do futuro

 

A Convenção Republicana de 1873: fundamental na mudança do regime

A Convenção Republicana de 1873: fundamental na mudança do regime

  Nesta segunda-feira, dia 2 de fevereiro, Itu, a cidade onde moro aqui no interior de São Paulo, comemora seu aniversário de 405 anos. Para marcar a data, o site Itu.com.br, dos meus amigos Alan e Deborah Dubner, fizeram a seguinte pergunta para um grupo de ituanos conhecidos: qual a cidade que queremos para o futuro? Ao escrever o meu texto, pensei em Itu – mas acho que, de certa forma, serviria também para o próprio Brasil, do qual nossa cidade parece ser hoje um microcosmo:

    ”Itu vive uma óbvia crise de identidade. Nossa cidade, que já foi das mais importantes do Brasil, enfrenta hoje dificuldades enormes na sua caminhada em direção ao futuro. Em 2014, virou notícia de horário nobre devido à crônica falta d’água, apontada como paradigma nacional da ausência de prioridades na gestão dos recursos públicos. Essa é apenas a face mais visível do problema. A preservação do nosso rico patrimônio histórico, artístico e cultural deixa muito a desejar. A devastação ambiental na região tem ocorrido de forma acelerada, repetindo um fenômeno tipicamente brasileiro, de falta de respeito e sabedoria no uso dos recursos naturais e coletivos. É uma imagem ruim, que nem mesmo a alegria do último campeonato paulista conquistado pelo nosso valente Ituano conseguiu melhor muito. O que fazer?

   Acredito que a maneira mais adequada de sonhar com um futuro melhor para Itu é observar o passado. Ao longo de mais de quatro séculos os ituanos tem demonstrado uma capacidade invejável de superar obstáculos e encontrar soluções para os seus problemas. Na época da colonização, estiveram na vanguarda do movimento bandeirantista, responsável pela ocupação e pela consolidação das futuras fronteiras nacionais. Na Independência, Itu se fez ouvir nas Cortes Constituintes de Lisboa pela voz de seu representante, o padre Diogo Antonio Feijó, futuro regente do Império. A contribuição dada ao país naquele delicado momento nacional tão decisiva que a cidade recebeu do imperador Pedro I o título de “Fidelíssima”. Meio século mais tarde, Itu reaparecia com destaque no cenário político nacional ao sediar a famosa Convenção Repúblicana de 1873, passo fundamental para a troca do regime dezesseis anos mais tarde. Ao lado desses importantes acontecimentos históricos, Itu contribuiu também para a cultura brasileira em áreas tão diversas quanto a Religião – a Roma brasileira dos padres do Patrocínio – , e as Artes, onde brilham expoentes como padre Jesuíno do Monte Carmello, Almeida Júnior e Elias Lobo.

    Um povo que demonstrou tão grande vitalidade no passado deveria temer o futuro? Obviamente, não. Acredito que essa centenária história de vitórias, conquistas e superação de desafios contém em si mesma todas as lições que nossa comunidade precisa para vencer as dificuldades do presente. Existem várias maneiras de se avaliar e reconhecer uma cidade. Pode ser pela sua história, pela sua arquitetura, pelo seu urbanismo, pela sua economia, pelos serviços, atrações ou pela qualidade de vida que oferece aos seus moradores. Itu é reconhecida por tudo isso e muito mais. Na minha opinião, porém, uma cidade vale mesmo é pelos cidadãos, pelas pessoas que ela ajuda a formar ao longo de sua jornada. E foi exatamente isso que Itu fez de forma bem sucedida no passado: formou pessoas ousadas, corajosas, honestas, solidárias, determinadas, capazes de mudar não apenas a comunidade em que viviam, mas a própria realidade nacional. Assim foi no passado. Assim pode ser no futuro.”

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19 de janeiro de 2015

Homenagem a Anna Maria Cascudo Barreto

Anna Maria Cascudo

Perdi uma grande e generosa amiga. Morreu no final da tarde de quinta-feira, 15 de janeiro, no Hospital São Lucas de Natal (RN) a jornalista, historiadora e advogada Anna Maria Cascudo Barreto. Tinha 78 anos e lutava contra um tumor no esôfago. Filha do grande folclorista potiguar Luís da Câmara Cascudo e viúva do engenheiro Camilo Barreto, deixa três filhos e três netros. Anna Maria herdou do pai a personalidade curiosa, incansável, exuberante, alegre e divertida. Falava alto, ria sem pudor e jamais passaria despercebida aonde quer que estivesse. Tinha uma legião de amigos e admiradores – no Rio Grande do Norte e em todo o Brasil.

   Conheci-a oito anos atrás, na sessão de autógrafos do meu primeiro livro, ‘1808’, em Natal. Em nosso segundo encontro, em 2010, para o lançamento de ‘1822’, deu-me de presente uma pequena joia literária: “Câmara Cascudo e Mário de Andrade: Cartas, 1924-1944”(Editora Global, 2010), livro que guardo com muito carinho em minha biblioteca. Vimo-nos pela última vez em 2013, em mais um lançamento, desta vez de ‘1889’. Guardei de recordação esta imagem, em que estamos acompanhados de Daliana, sua filha e hoje responsável pelo precioso acervo do pai. Ela fazia sempre questão de segurar o meu livro para a foto – ‘para fazer propaganda’, dizia. Fica aqui, portanto, esta foto como minha singela homenagem a Anna Maria e a tudo de bom que representou enquanto esteve entre nós!

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14 de janeiro de 2015

A voz da intolerância na defesa de um museu fechado no Rio de Janeiro

 

O Palácio de São Cristóvão, onde funciona hoje o Museu Nacional, visto por Debret no Século 19

O Palácio de São Cristóvão, onde funciona hoje o Museu Nacional, visto por Debret no Século 19

   Pelo menos desta vez, parece que a pressão funcionou. Fechado por falta de dinheiro desde segunda-feira, dia 12 de janeiro, o Museu Nacional do Rio de Janeiro promete reabrir até sexta, depois de liberação de verba de emergência do governo federal. Promessa da reitoria da UFRJ, que administra a instituição. Minha gratidão às cerca de 50 mil pessoas que viram e se manisfestaram no post anterior, aqui no blog e nas redes sociais, no qual critiquei o fechamento deste e de outros importantes museus brasileiros.

   Obviamente, a contribuição que demos aqui foi relativamente modesta diante da enorme repercussão que o caso teve na imprensa e nas redes sociais. Entendo, porém, que em uma sociedade democrática precisamos nos manidestar e toda a contribuição é bem-vinda. Foi o que fizemos aqui. O que me incomoda é um certo patrulhamento reinante no Brasil de hoje, que tenta calar a voz dos críticos, geralmente de forma grosseira e mal-educada.

   Um internauta do Rio de Janeiro, nitidamente simpático ao governo federal, chegou a me chamar de “terrorista” no Facebook. Como se erguer a voz em defesa de um museu fechado por corte de verbas federais fosse sinônimo de terrorismo. Mas isso também é parte do jogo democrático. Vamos aprendendo…

   Leia neste link a notícia da Agência Brasil sobre a possível reabertura do Museu Nacional: http://agenciabrasil.ebc.com.br/cultura/noticia/2015-01/museu-nacional-pode-reabrir-ao-publico-neste-fim-de-semana-espera-diretora

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13 de janeiro de 2015

O fechamento do Museu Nacional: uma tragédia com a cara do Brasil

 

O prédio do Museu Nacional do Rio de Janeiro: fechado por falta de dinheiro

O prédio do Museu Nacional do Rio de Janeiro: fechado por falta de dinheiro

   Repetiu-se no Rio de Janeiro esta semana mais uma tragédia tipicamente brasileira. O Museu Nacional, o mais antigo do país, fechou as portas aos visitantes por falta de dinheiro. Mantido pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e situado na Quinta da Boa Vista, é o maior museu de História Natural da América Latina e o mais antigo centro de pesquisas científicas do Brasil. Foi inaugurado em junho de 1818, ou seja, há quase duzentos anos. Antes de fechar as portas por falta de funcionários e com o pagamento das contas de limpeza e vigilância atrasados, a instituição recebia cerca de 5.000 visitantes por dia nos fins de semana, entre eles centenas de estudantes e professores. Segundo o comunicado divulgado pela direção do museu, não há prazo para reabertura.

   Além de uma referência na área de Ciência e História Natural, o edifício que abriga o Museu Nacional é parte fundamental da história brasileira. Doado pelo traficante de escravos Elias Antonio Lopes ao então príncipe regente Dom João em 1808, converteu-se na sede oficial da monarquia brasileira até a Proclamação da República, em 1889. Ali moraram, além do próprio Dom João, os imperadores Pedro I e Pedro II.

   A crise do Museu Nacional já vinha se arrastando havia meses. No ano passado, o governo federal deixou de liberar cerca de 20 milhões de reais previstos no seu orçamento, o equivalente a 20% do valor necessário para a manutenção do museu. Na última segunda-feira, o Ministério da Educação anunciou às pressas a liberação de 4 milhões de reais, verba que, no entanto, poderá ser utilizada pela UFRJ em outros gastos. Na nota que divulgaram ao público para explicar o fechamento, a diretora do museu, Cláudia Rodrigues Carvalho, e o coordenador do Fórum de Ciência e Cultura da UFRJ, Carlos Vainer, criticaram duramente o governo federal pela contenção de verbas: “Naquela que deveria ser a ‘Pátria Educadora’, conforme promessa da presidente Dilma Roussef em sua posse, a UFRJ não tem recebido os recursos que lhe cabem, até para pagamento das empresas que prestam serviços de limpeza e portaria ao Museu Nacional”.

   A triste notícia do fechamento do Museu Nacional, infelizmente, não chega a ser novidade no Brasil – um país definitivamente sem memória. Outros grandes e importantes museus estão fechados há muito tempo por falta de dinheiro ou devido à má administração dos seus recursos. O exemplo mais simbólico é o Museu do Ipiranga, situado no local em que o então príncipe regente Dom Pedro encenou o famoso “Grito do Ipiranga”, marco da Independência do Brasil em 1822. Mantido pela Universidade de São Paulo, o museu que, entre outras relíquias abriga o célebre quadro do pintor Pedro Américo, está fechado para reformas desde meados de 2012. Faltando apenas sete anos para a comemoração do bicentenário da Independência, não há  prazo ainda definido para reabrir suas portas. Outro exemplo clamoroso de instituição em ruínas é o Museu Mariano Procópio, de Juiz de Fora, que abriga um dos acervos mais importantes relacionados ao Segundo Império. Fechado há muitos anos, enfrenta problemas de infiltração da água da chuva que afeta não só a estrutura do prédio mas também parte do precioso acervo.

   Por que é importante valorizar os museus brasileiros? Museus não são apenas um local de passeio e entretenimento. Visitar um museu é uma forma de observar a vida e a grande aventura humana em uma dimensão que raramente está disponível em outros locais. É uma maneira de entender quem somos, de onde viemos e como chegamos até aqui. Como escrevi tempos atrás em uma reportagem sobre o fechamento do Ipiranga, zelar pela conservação dos nossos museus é como cuidar de um espelho no qual, de tempos em tempos, os brasileiros se miram em busca de suas origens e de sua identidade. E a imagem que aparece refletida hoje nesses locais não é nada boa.

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